Ninguém explicou como seria. Ninguém ao menos avisou que aconteceria. Eu, normalmente, duvidaria.
E sem explicação, sem avisos ou dúvidas, o mundo virou de lado. Virou, espelhou, deu cambalhota, mordeu a própria orelha. O mundo que era um agora é outro, mudou de cor, de fuso, de lógica. O toque se fez novo, o cheiro passou a ser hipótese, o calor agora era um só: o outro vinha de um jeito que não dá pra explicar, nem em blog. Os caminhos passaram a ser engraçados, as novidades não faziam tanto sentido e a língua que eu falava ficou estrangeira.
Era como chegar a algum lugar bem desconhecido e se sentir à vontade: não tinham vergonhas ou referências, eram apenas beijos, sonhos, delícias, sorvetes. Sabe aquela vontade de mudar para o Japão, quando tudo vira enfadonho? Então! Fiz a mudança pro Japão de mim, posso afirmar, agora. Mudei de planos, dei meia volta, refiz o retorno e passei pela mesma guarita.
Alguns encontros fazem pensar, outros machucam, outros nem chegam a acontecer e mudam nossas vidas. Foram algumas horas para entender, engolir, suportar.
Precisei de algum tempo - e quem não precisaria? - para absorver esse susto, essa ebulição, essa liberdade de solteira, de moça, de namorada, de amante, de vontade. De ser o que se bebe, o que se come, de ser uma flor, ou uma lajota (caso eu queira descansar meio marrom). Eu posso escolher algumas coisas para que as que não dependem de mim fiquem mais legais ou encaminhadas.
Ou que pelo menos sejam apenas as coisas que não dependem de mim.
Vontade de sair voando.
Impressão de que é possível.
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quarta-feira, 9 de setembro de 2009
sexta-feira, 4 de setembro de 2009
de 4 (atos).
Inexplicável.
Em palavras, gestos, sons, expressões, interpretações equivocadas, sonhos e suposições, construíra uma verdadeira história de amor em seus pensamentos. Uma história inventada, fantasiada, ilusória. E tão real que poderia descrever o gosto. O cheiro, o toque. Pensava se não estava maluca e, sim, tinha certeza de que estava. Nunca foi tão maluca e tão sensata, certa do que pensava e sentia. Tinha dúvidas e medos, queria previsões certeiras, planos escritos, resultados futuros. Era impossível, e tentava continuar pelo caminho que começara a ser traçado.
Sentia-o em cima, dentro, passando por ela. Sentia a língua babando seu corpo, suas mãos apertando, nariz respirando em suas coxas. Via fantasias realizadas, tudo era possível àquela impossibilidade, àquela distância, àquela quase mentira. A tão verdade que ali rondava, transitando por rodovias terrestres e aéreas, oscilava. Testava sua inteligência e autoconhecimento.
Incompreensível.
Penava. Precisava. Questão de salubridade. Agia como se não existissem limites, amarras, vidas reais. Dava seu jeito no ônibus, em casa, no trabalho, com os amigos. Olhava em volta e tinha o lado azul, quase seguro, das histórias de infância, da saudade que sentia, de sorrir para o olho fechando.
Ela era um sorriso, ele disse. Talvez por isso ela tenha chorado esse dia. De alegria, de saudade. Um choro pela crueldade que a situação vinha impondo, alimentando, evoluindo.
Necessário.
Não sabia mais fugir. Nem queria, e essa era a parte onde o querer estava à vontade: no persistir. Precisava continuar a tocar o corpo, ainda que por meio de uma louca exposição de desejos, de liberdades. Era uma história diferente, um apelo ao seu mais profundo compartimento. E ela vinha cedendo.
Hecatombe.
Ele tinha toda razão. Talvez essa fosse uma das poucas definições possíveis para ela, no momento.
Em palavras, gestos, sons, expressões, interpretações equivocadas, sonhos e suposições, construíra uma verdadeira história de amor em seus pensamentos. Uma história inventada, fantasiada, ilusória. E tão real que poderia descrever o gosto. O cheiro, o toque. Pensava se não estava maluca e, sim, tinha certeza de que estava. Nunca foi tão maluca e tão sensata, certa do que pensava e sentia. Tinha dúvidas e medos, queria previsões certeiras, planos escritos, resultados futuros. Era impossível, e tentava continuar pelo caminho que começara a ser traçado.
Sentia-o em cima, dentro, passando por ela. Sentia a língua babando seu corpo, suas mãos apertando, nariz respirando em suas coxas. Via fantasias realizadas, tudo era possível àquela impossibilidade, àquela distância, àquela quase mentira. A tão verdade que ali rondava, transitando por rodovias terrestres e aéreas, oscilava. Testava sua inteligência e autoconhecimento.
Incompreensível.
Penava. Precisava. Questão de salubridade. Agia como se não existissem limites, amarras, vidas reais. Dava seu jeito no ônibus, em casa, no trabalho, com os amigos. Olhava em volta e tinha o lado azul, quase seguro, das histórias de infância, da saudade que sentia, de sorrir para o olho fechando.
Ela era um sorriso, ele disse. Talvez por isso ela tenha chorado esse dia. De alegria, de saudade. Um choro pela crueldade que a situação vinha impondo, alimentando, evoluindo.
Necessário.
Não sabia mais fugir. Nem queria, e essa era a parte onde o querer estava à vontade: no persistir. Precisava continuar a tocar o corpo, ainda que por meio de uma louca exposição de desejos, de liberdades. Era uma história diferente, um apelo ao seu mais profundo compartimento. E ela vinha cedendo.
Hecatombe.
Ele tinha toda razão. Talvez essa fosse uma das poucas definições possíveis para ela, no momento.
quarta-feira, 26 de agosto de 2009
A vida é tão rara...
Eu ando meio cansada. Cheia de sono nas horas erradas, agitação descabida, humor oscilante, impaciente.
Pensativa, porém.
Pessoas em volta, antes conhecidas, são agora estranhas e, muitas vezes, enfadonhas. Faltam argumentos e vontade de criá-los para me relacionar com o mundo. Nada de dramas, sensações de fim, de dor. Não peço mais afago às derrotas. A seta aponta para cima, a espontaneidade tenta me guiar e - graças! - muitas vezes, consegue.
Os amores me escapam, o trabalho me entedia; dormir e acordar têm sido exercícios diários, muitas vezes transformados em tarefas árduas e sem data para acabar.
Aí vem uma calma, um vento baiano soprando aqui dentro, uma voz tranquila, dizendo que a hora passa, o dia cai, que tudo acaba. Eu respiro, ouço a noite, subo a ladeira entoando o mantra.
Troco o "tudo de novo amanhã" por "tudo novo amanhã", mesmo que não venha, regando os sentimentos novos, que são melhores que os antigos, ainda que esses últimos tenham servido para brotarem os que eu quero.
Tudo se interliga, uma coisa chama a outra.
Tudo, tudo, tudo vai dar pé.
Pensativa, porém.
Pessoas em volta, antes conhecidas, são agora estranhas e, muitas vezes, enfadonhas. Faltam argumentos e vontade de criá-los para me relacionar com o mundo. Nada de dramas, sensações de fim, de dor. Não peço mais afago às derrotas. A seta aponta para cima, a espontaneidade tenta me guiar e - graças! - muitas vezes, consegue.
Os amores me escapam, o trabalho me entedia; dormir e acordar têm sido exercícios diários, muitas vezes transformados em tarefas árduas e sem data para acabar.
Aí vem uma calma, um vento baiano soprando aqui dentro, uma voz tranquila, dizendo que a hora passa, o dia cai, que tudo acaba. Eu respiro, ouço a noite, subo a ladeira entoando o mantra.
Troco o "tudo de novo amanhã" por "tudo novo amanhã", mesmo que não venha, regando os sentimentos novos, que são melhores que os antigos, ainda que esses últimos tenham servido para brotarem os que eu quero.
Tudo se interliga, uma coisa chama a outra.
Tudo, tudo, tudo vai dar pé.
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(30-1): pré domingueira dos 30,
à beira de.,
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terça-feira, 21 de julho de 2009
Às vezes, é difícil ser eu.
Achei que o 415 estava excêntrico demais, ao entrar na Pinheiro Machado. Quando eu olhei em volta, estava no Santa Bárbara.
- Moço, que caminho é esse?
- O caminho do ônibus.
- E que ônibus é esse?
- bóbóbó seis.
- Não é o 415???
- Não.
- E como eu achava que era o 415?
- Não sei, você tá indo pra onde?
- Pra Praça XV!!!!
- Ah, você desce ali e pega um pra Praça Xv.
Mas eu não tinha dinheiro: as moedas espalhadas na minha bolsa somavam apenas R$1,95. Nada a fazer. Respirei fundo, desci no Catumbi, fiz sinal pro 201, entrei, pedi ao motorista que me deixasse passar (era daqueles sem cobrador) e juntei todas as moedinhas que eu tinha (muitas!). "Paguei" a passagem e torci muito para que ele não conferisse nunca. A cada sinal fechado, eu reparava na movimentação dele e gelava, achando que ele estivesse contando moedas. Não estava. Pelo menos, não reclamou.
Cheguei no trabalho um pouco depois do que eu pretendia ter chegado. Sem café da manhã, chamei minha amiga para ir até a esquina comigo, comprar um iogurte.
- Vou sim, Carol. Espera só eu terminar aqui um troço?
- Claro.
E sentei.
- Pronto. Bora?
- Bora.
Aí eu abri a bolsa para pegar o cartão. O cartão sumiu.
Liga pro Manel Manel vê por favor se tem um cartão de banco no bolso da minha calça na cadeira do meu quarto? Carol, tem cartão nenhum aqui não... Liga pro Zona Sul Moço, por um acaso acharam um cartão aí ontem à noite? eu fiz uma compra e acho que deixei cair por aí. Não, não encontraram cartão nenhum. Esvazia a bolsa, abre tudo. Achei 40 centavos, eu tinha a passagem! Mas o cartão sumiu. Liga pra central cartões. Moço, fui furtada ontem só dei conta hoje, preciso cancelar o cartão. Ok, cartão cancelado, em sete dias úteis você estará recebendo um novo. Ok, obrigada.
Levanto e boto a mão no bolso para ir beber uma água.
No bolso.
O cartão.
Dentro do bolso, estava o cartão. Estava lá desde que eu levantei para o iogurte e sentei para esperar a amiga terminar o troço. Eu faço essas coisas automáticas e não registro tê-las feito.
- Oi, Michel. Acabei de cancelar meu cartão, pois achava que tinha sido furtada. Mas ele estava o tempo todo no meu bolso. Existe a possibilidade de cancelarmos o canelamento?
- Estarei verificando.
- Ok.
- Senhora Carolina, não dá. O chip já foi queimado. Agora a senhora precisará esperar o novo.
- Ok, Michel, muito obrigada.
E ainda nem chegou a hora do almoço...
Meu mundo é hoje _ Teresa Cristina cantando
- Moço, que caminho é esse?
- O caminho do ônibus.
- E que ônibus é esse?
- bóbóbó seis.
- Não é o 415???
- Não.
- E como eu achava que era o 415?
- Não sei, você tá indo pra onde?
- Pra Praça XV!!!!
- Ah, você desce ali e pega um pra Praça Xv.
Mas eu não tinha dinheiro: as moedas espalhadas na minha bolsa somavam apenas R$1,95. Nada a fazer. Respirei fundo, desci no Catumbi, fiz sinal pro 201, entrei, pedi ao motorista que me deixasse passar (era daqueles sem cobrador) e juntei todas as moedinhas que eu tinha (muitas!). "Paguei" a passagem e torci muito para que ele não conferisse nunca. A cada sinal fechado, eu reparava na movimentação dele e gelava, achando que ele estivesse contando moedas. Não estava. Pelo menos, não reclamou.
Cheguei no trabalho um pouco depois do que eu pretendia ter chegado. Sem café da manhã, chamei minha amiga para ir até a esquina comigo, comprar um iogurte.
- Vou sim, Carol. Espera só eu terminar aqui um troço?
- Claro.
E sentei.
- Pronto. Bora?
- Bora.
Aí eu abri a bolsa para pegar o cartão. O cartão sumiu.
Liga pro Manel Manel vê por favor se tem um cartão de banco no bolso da minha calça na cadeira do meu quarto? Carol, tem cartão nenhum aqui não... Liga pro Zona Sul Moço, por um acaso acharam um cartão aí ontem à noite? eu fiz uma compra e acho que deixei cair por aí. Não, não encontraram cartão nenhum. Esvazia a bolsa, abre tudo. Achei 40 centavos, eu tinha a passagem! Mas o cartão sumiu. Liga pra central cartões. Moço, fui furtada ontem só dei conta hoje, preciso cancelar o cartão. Ok, cartão cancelado, em sete dias úteis você estará recebendo um novo. Ok, obrigada.
Levanto e boto a mão no bolso para ir beber uma água.
No bolso.
O cartão.
Dentro do bolso, estava o cartão. Estava lá desde que eu levantei para o iogurte e sentei para esperar a amiga terminar o troço. Eu faço essas coisas automáticas e não registro tê-las feito.
- Oi, Michel. Acabei de cancelar meu cartão, pois achava que tinha sido furtada. Mas ele estava o tempo todo no meu bolso. Existe a possibilidade de cancelarmos o canelamento?
- Estarei verificando.
- Ok.
- Senhora Carolina, não dá. O chip já foi queimado. Agora a senhora precisará esperar o novo.
- Ok, Michel, muito obrigada.
E ainda nem chegou a hora do almoço...
Meu mundo é hoje _ Teresa Cristina cantando
terça-feira, 21 de abril de 2009
"Porque eu já tô de saco cheio!"
Eu sei que pode parecer heresia. Mas tô com raiva do Chico. É, do Buarque e se ele aparecesse aqui agora na minha frente, eu lhe diria umas poucas e boas. Tudo pela letra da música que acabou me batizando.
Se eu tiver filhos, só vou me inspirar com axé music e frevo.
Se eu tiver filhos, só vou me inspirar com axé music e frevo.
Vontade de falar palavrão
putaquiupariumerdacaralhobucetapirocamerdadenovo cucuenormecufedorentocaralhabuçanhafodaseputaquiupariudenovo manucuvaitomarnoolhodoseucu
vaitomarnomeiodoolhodoseucuenormefedorento.
merda.
vaitomarnomeiodoolhodoseucuenormefedorento.
merda.
terça-feira, 10 de março de 2009
peçonhas
Com menos de 8 dias de intervalo, uma perereca pulou no meu peito e uma lagartixa na minha mão.
Eca.
Eca.
quarta-feira, 4 de março de 2009
Post infinito
Tem um tempo que a gente não conta, não percebe - ou percebe errado, se for possível perceber errado algo que seja para ser percebido -, não mede, e até mesmo - quem sabe!?!? - desconhece.
Falamos de tempo o tempo todo, pedimos tempo, reclamamos que o tempo é curto ao mesmo tempo que não entendemos porque ele não passa logo, quando "logo" é tempo.
Somos capazes até de perder o tempo ou perder tempo.
Não dá tempo de fazer nada: ler aquele livro, ouvir aquele cd, ir até aquele lugar bacana que não sei quem mencionou.
O tempo tá ruim, o tempo tá bom, tempo é dinheiro.
E tem o tempo do pensamento.
Aqueles insights que não sabemos como tivemos tantas idéias em apenas um segundo, o tempo do sonho, que, apesar de termos dormido 8 horas seguidas, dizemos: sonhei que bati com o carro e o carro virava uma azeitona. (Oito horas só pra isso?)
Tem aquele tempo do termômetro do "A Montanha Mágica", quando os sete minutos do termômetro nas axilas parecem mais rápidos do que os sete minutos do dia anterior, do mesmo termômetro, na mesma axila.
O tempo do Johnny Carter, do "O Perseguidor", de quando se está no metrô e a quantidade de coisas pensadas no deslocamento de duas estações - deslocamento esse que dura 3 minutos - demorariam não menos de uma hora para serem verbalizados.
Cada coisa no seu tempo talvez seja uma das frases mais irritantes em certos momentos - só perde para o 'vai passar, você vai ver...' e para o 'não fica assim não'. Porque acontece que esse tempo é grande. O tempo da cabeça não é o do relógio e o do relógio não é o que a gente vive que, por sua vez, não é o tempo que a gente precisaria, porque, no fim das contas, o tempo nunca é suficiente.
Às vezes eu acho que o tempo não existe, mas é indiscutível que ele passa.
Isso é fato: o tempo passa voando, passa raspando, passa e destrói, passa e melhora, passa e defuma, passa e apodrece, passa e deixa nascer, e passa, apenas.
Passa que a gente nem vê, nem sente, e aí o tempo vira passado.
O tempo futuro é o que a gente não sabe o que vem trazendo, mas tá lá - tá lá um coquinho! Ele ainda não é, a não ser que seja em um outro 'mundo' e a gente caminha até ele - e vem, nem que seja para passar, apenas.
Tem o tempo presente que, nunca é, pois o é já deixará de ter sido um segundo depois e tudo dependendo do referencial: a primeira linha deste post é - se pensarmos no post dentro do blog - e foi - se pensarmos apenas no post e que eu já estou pra lá da vigésima linha, no bloco de notas.
Meu tempo tá acabando ou começando? Ou está no meio? Tem meio no tempo? Meio-tempo? É perda de tempo?
(...)
::Para ler::
O Perseguidor, conto de Julio Cortazar
Falamos de tempo o tempo todo, pedimos tempo, reclamamos que o tempo é curto ao mesmo tempo que não entendemos porque ele não passa logo, quando "logo" é tempo.
Somos capazes até de perder o tempo ou perder tempo.
Não dá tempo de fazer nada: ler aquele livro, ouvir aquele cd, ir até aquele lugar bacana que não sei quem mencionou.
O tempo tá ruim, o tempo tá bom, tempo é dinheiro.
E tem o tempo do pensamento.
Aqueles insights que não sabemos como tivemos tantas idéias em apenas um segundo, o tempo do sonho, que, apesar de termos dormido 8 horas seguidas, dizemos: sonhei que bati com o carro e o carro virava uma azeitona. (Oito horas só pra isso?)
Tem aquele tempo do termômetro do "A Montanha Mágica", quando os sete minutos do termômetro nas axilas parecem mais rápidos do que os sete minutos do dia anterior, do mesmo termômetro, na mesma axila.
O tempo do Johnny Carter, do "O Perseguidor", de quando se está no metrô e a quantidade de coisas pensadas no deslocamento de duas estações - deslocamento esse que dura 3 minutos - demorariam não menos de uma hora para serem verbalizados.
Cada coisa no seu tempo talvez seja uma das frases mais irritantes em certos momentos - só perde para o 'vai passar, você vai ver...' e para o 'não fica assim não'. Porque acontece que esse tempo é grande. O tempo da cabeça não é o do relógio e o do relógio não é o que a gente vive que, por sua vez, não é o tempo que a gente precisaria, porque, no fim das contas, o tempo nunca é suficiente.
Às vezes eu acho que o tempo não existe, mas é indiscutível que ele passa.
Isso é fato: o tempo passa voando, passa raspando, passa e destrói, passa e melhora, passa e defuma, passa e apodrece, passa e deixa nascer, e passa, apenas.
Passa que a gente nem vê, nem sente, e aí o tempo vira passado.
O tempo futuro é o que a gente não sabe o que vem trazendo, mas tá lá - tá lá um coquinho! Ele ainda não é, a não ser que seja em um outro 'mundo' e a gente caminha até ele - e vem, nem que seja para passar, apenas.
Tem o tempo presente que, nunca é, pois o é já deixará de ter sido um segundo depois e tudo dependendo do referencial: a primeira linha deste post é - se pensarmos no post dentro do blog - e foi - se pensarmos apenas no post e que eu já estou pra lá da vigésima linha, no bloco de notas.
Meu tempo tá acabando ou começando? Ou está no meio? Tem meio no tempo? Meio-tempo? É perda de tempo?
(...)
::Para ler::
O Perseguidor, conto de Julio Cortazar
terça-feira, 25 de novembro de 2008
Conversa de idéias batidas
"esse é só o começo do fim da nossa vida"
Ontem eu tive umas 15 epifanias por segundo. Tentei anotar uma por uma, mas não deu. Eu não parava de pensar uma coisa em cima da outra.
"me abraça forte agora, que é chegada a nossa hora"
Ou seja, eu não tive epifania nenhuma, porque de nada adianta tanta coisa passar e nada ficar registrada.
"ai, não fala isso, por favor"
Aí eu pensei: Cabe tanta coisa assim aqui dentro do crânio? Por isso que eu não acho nada, é uma bagunça absurda.
"A gente corre pra se esconder..."
Por que no crânio?
É muita coisa pra ficar numa caixa levemente oval apenas.
Deve ter coisa por todo o corpo e pelo que está em volta dele.
E tudo isso mexe aqui dentro.
"Deus às vezes parece se esquecer"
Eu também esqueci tudo.
Coisa ou outra ficou, mas não vale.
O bacana era tudo junto.
"eu só queria o amor..."
Pode tirar as aspas que isso aí quem disse fui eu.
... e a torcida do flamengo.
"sem saber que o fim já vai chegar"
Chegou e ploft.
Dormi em cima disso tudo.
Para ouvir...
Conversa de botas batidas_Marcelo Camelo
Ontem eu tive umas 15 epifanias por segundo. Tentei anotar uma por uma, mas não deu. Eu não parava de pensar uma coisa em cima da outra.
"me abraça forte agora, que é chegada a nossa hora"
Ou seja, eu não tive epifania nenhuma, porque de nada adianta tanta coisa passar e nada ficar registrada.
"ai, não fala isso, por favor"
Aí eu pensei: Cabe tanta coisa assim aqui dentro do crânio? Por isso que eu não acho nada, é uma bagunça absurda.
"A gente corre pra se esconder..."
Por que no crânio?
É muita coisa pra ficar numa caixa levemente oval apenas.
Deve ter coisa por todo o corpo e pelo que está em volta dele.
E tudo isso mexe aqui dentro.
"Deus às vezes parece se esquecer"
Eu também esqueci tudo.
Coisa ou outra ficou, mas não vale.
O bacana era tudo junto.
"eu só queria o amor..."
Pode tirar as aspas que isso aí quem disse fui eu.
... e a torcida do flamengo.
"sem saber que o fim já vai chegar"
Chegou e ploft.
Dormi em cima disso tudo.
Para ouvir...
Conversa de botas batidas_Marcelo Camelo
segunda-feira, 24 de novembro de 2008
"... e só Carolina não viu..."*
Esperei a banda acabar, o vocalista virar solo e namorar uma alternativa teenager para descobrir como é bom ouvir los hermanos.
Entrei no site e saí ouvindo, achando que cada uma das músicas foi feita pra mim, pro meu agora, pro meu ontem, pros meus 5 minutos atrás. Tem música pra minha rima boba, até.
Tô numa fase daquelas em que todo livro, toda letra, toda música, toda mensagem, todo céu, toda chuva e tudo que eu vejo vira roupa do meu número, sabe?
Tudo encaixa, tudo me diz alguma coisa que, por mais que sejam diversas as palavras, o nucleozinho, aquele it, aquilo que faz a coisa ser mesmo a coisa – whatever – tá dizendo a mesma coisa.
* Ah, Chiquim de Holanda... por que a sua Carolina não era mais sagaz, hein...
Entrei no site e saí ouvindo, achando que cada uma das músicas foi feita pra mim, pro meu agora, pro meu ontem, pros meus 5 minutos atrás. Tem música pra minha rima boba, até.
Tô numa fase daquelas em que todo livro, toda letra, toda música, toda mensagem, todo céu, toda chuva e tudo que eu vejo vira roupa do meu número, sabe?
Tudo encaixa, tudo me diz alguma coisa que, por mais que sejam diversas as palavras, o nucleozinho, aquele it, aquilo que faz a coisa ser mesmo a coisa – whatever – tá dizendo a mesma coisa.
* Ah, Chiquim de Holanda... por que a sua Carolina não era mais sagaz, hein...
sexta-feira, 14 de novembro de 2008
celular de bêbado não tem dono
O pior casamento possível é do celular com o boteco (bar, restaurante, ambulante, qualquer birosca que venda bebida alcóolica).
A gente acha que pode resolver alguns problemas, fazer algumas declarações, acordar o amigo sem o menor problema.
Mas não, não pode. Aí já chega no bar dizendo: aê, alguém segura meu celular pra mim? Não posso tê-lo em meu poder. Aí já era. Porque a gente sempre dá um jeito de mandar torpedo, de ligar, e os torpedos saem truncados, faltando letra.
Aí você acorda na madrugada, com sede, e se depara com o celular aberto e olha a seguinte mensagem: Falha ao enviar torpedo para o telefone 552199999999. Deseja tentar novamente? E você não faz idéia do que se trata e clica no não, e o celular diz: torpedo enviado com sucesso. E você pensa putaquiupariu, eu cliquei no não. E nem vai lá olhar nos torpedos enviados pra ver o tamanho da cagada que fez.
Aí vem o torpedo de resposta no dia seguinte e você é obrigada a olhar os torpedos enviados e morre de vergonha, aquele enviado no meio da madrugada conseguia ser pior que o primeiro e você olha na listinha do celular: tinham no mínimo 5 torpedos equivocados.
Não dá nem tempo de ter ressaca, dor de cabeça e enjôo.
*Troque todos os "você" e "a gente" por eu. É, euzinha de Andrade, eu mesma.
A gente acha que pode resolver alguns problemas, fazer algumas declarações, acordar o amigo sem o menor problema.
Mas não, não pode. Aí já chega no bar dizendo: aê, alguém segura meu celular pra mim? Não posso tê-lo em meu poder. Aí já era. Porque a gente sempre dá um jeito de mandar torpedo, de ligar, e os torpedos saem truncados, faltando letra.
Aí você acorda na madrugada, com sede, e se depara com o celular aberto e olha a seguinte mensagem: Falha ao enviar torpedo para o telefone 552199999999. Deseja tentar novamente? E você não faz idéia do que se trata e clica no não, e o celular diz: torpedo enviado com sucesso. E você pensa putaquiupariu, eu cliquei no não. E nem vai lá olhar nos torpedos enviados pra ver o tamanho da cagada que fez.
Aí vem o torpedo de resposta no dia seguinte e você é obrigada a olhar os torpedos enviados e morre de vergonha, aquele enviado no meio da madrugada conseguia ser pior que o primeiro e você olha na listinha do celular: tinham no mínimo 5 torpedos equivocados.
Não dá nem tempo de ter ressaca, dor de cabeça e enjôo.
*Troque todos os "você" e "a gente" por eu. É, euzinha de Andrade, eu mesma.
sábado, 8 de novembro de 2008
Autopsicografia
Bêbada, em ebulição. Parece que o que passa na minha cabeça é mais coisa do que cabe no tamanho dela. Eu não me entendo, não me leio, fico chata, densa...
Cabe tudo nesse mundo abstrato que o meu corpo não suporta. Não sei me divertir e o (desa)sossego também não conforta e dá vontade de não existir; virar algo fora do meu corpo.
E é difícil de administrar. E se eu me sou inadministrável, quem de fora poderia me bancar?
Eu quero um coração grande o bastante para abraçar tudo isso e esse coração não apareceu.
Tenho me sentido especial, de um jeito que não é necessariamente bom. Eu não me basto para as coisas que acontecem dentro de mim e às vezes calo, porque a maioria disso tudo é indizível e eu achei que tinha encontrado alguém que soubesse me ler. Mas era alguém que tinha idéias prontas e não soube me encaixar nelas; e é isso: eu não me encaixo.
Cabe tudo nesse mundo abstrato que o meu corpo não suporta. Não sei me divertir e o (desa)sossego também não conforta e dá vontade de não existir; virar algo fora do meu corpo.
E é difícil de administrar. E se eu me sou inadministrável, quem de fora poderia me bancar?
Eu quero um coração grande o bastante para abraçar tudo isso e esse coração não apareceu.
Não foi dessa vez. Eu não coube nele, não coube em nenhum que já tenha conhecido.
Tenho me sentido especial, de um jeito que não é necessariamente bom. Eu não me basto para as coisas que acontecem dentro de mim e às vezes calo, porque a maioria disso tudo é indizível e eu achei que tinha encontrado alguém que soubesse me ler. Mas era alguém que tinha idéias prontas e não soube me encaixar nelas; e é isso: eu não me encaixo.
segunda-feira, 3 de novembro de 2008
Angústia.
É vontade de engolir o travesseiro, porque o dente de cima pressiona o dente de baixo que faz a mesma força no primeiro e chega a doer a mandíbula. É um choro seco que vai e volta e engole cada pedacinho de dentro, parece uma coisa corroendo um caminho e a coisa é a angústia e o caminho sou eu toda. E a cabeça não para de mandar imagens doloridas que mesmo de olho fechado eu vejo todas e a mão que esfrega forte no rosto e deixa a bochecha vermelha, o nariz inchado. E não tem lágrima nenhuma, no choro seco. E dói, queima, aperta, amarra, torce, machuca. Vontade de tomar 60 ultra power comprimidos e só acordar daqui a vinte dias com a memória zerada, sem reconhecer até o travesseiro mastigado.
Momento hip hop
V. V. - B.Negão
Bumerangue é o efeito
O que for daquela forma, retorna com a mesma intensidade, de modo perfeito
Daquele mesmo jeito
Ação e reação
Tipo João bobo, tipo saco de boxe
O famoso e laureado V. V. (vai e volta)
Tipo engravatado larápio que rouba muito mas não vive sem escolta
Não é punição, não é castigo, meu amigo
Não é maldição nem profecia, minha tia
É só a lei
Desde os tempos em que os tempos não eram contados, já disse rei dos reis
Preste atenção, analise, não é difícil (tudo é vai e volta)
Ação, palavra, pensamento, atitude (tudo é vai e volta)
Metafisicamente, sub-atômicamente falando (tudo é vai e volta)
tem responsa pra fazer, tem que ter responsa pra aturar (tudo é vai e volta)
"Faça como os outros apenas aquilo que gostaria que fizessem contigo"
Esse sábio é mais do que batido, antigo, dito popular
Base de quase todas as religiões
Bastante difundido, porém pouco praticado e seguido
Guarda em si um grande segredo, uma constatação:
Agressão ao próprio irmão é como dar um tiro no próprio pé, (ou no próprio umbigo), eu digo
Pois, por incrença que parível, não há separação, não há inimigo
E sim, a ignorância aguda, falta de aprendizado e só
Pois somos literalmente parte do mesmo organismo
Como já disse cristo, a filosofia oriental, o tao, e a física quântica
Esse sim o caminho, o caminho pelo qual o racional cartesiano e o espiritual finalmente se encontram
Preste atenção, analise não é difícil, (tudo é vai e volta),
Ação, palavra, pensamento, atitude, (tudo é vai e volta),
Metafisicamente, sub-atômicamente, (tudo é vai e volta),
tem responsa pra fazer, tem que ter responsa pra aturar, (tudo é vai e volta),
Lucro abissal, frescura é ligar pra detonação ambiental (tudo é vai e volta)
Seu pulmão no limite, inverno moderno beira os 40 graus (tudo é vai e volta)
Não divida o bolo, e veja crescer à sua volta o caos (tudo é vai e volta)
Negatividade, positividade: o seletor é você (tudo é vai e volta)
Bumerangue é o efeito
O que for daquela forma, retorna com a mesma intensidade, de modo perfeito
Daquele mesmo jeito
Ação e reação
Tipo João bobo, tipo saco de boxe
O famoso e laureado V. V. (vai e volta)
Tipo engravatado larápio que rouba muito mas não vive sem escolta
Não é punição, não é castigo, meu amigo
Não é maldição nem profecia, minha tia
É só a lei
Desde os tempos em que os tempos não eram contados, já disse rei dos reis
Preste atenção, analise, não é difícil (tudo é vai e volta)
Ação, palavra, pensamento, atitude (tudo é vai e volta)
Metafisicamente, sub-atômicamente falando (tudo é vai e volta)
tem responsa pra fazer, tem que ter responsa pra aturar (tudo é vai e volta)
"Faça como os outros apenas aquilo que gostaria que fizessem contigo"
Esse sábio é mais do que batido, antigo, dito popular
Base de quase todas as religiões
Bastante difundido, porém pouco praticado e seguido
Guarda em si um grande segredo, uma constatação:
Agressão ao próprio irmão é como dar um tiro no próprio pé, (ou no próprio umbigo), eu digo
Pois, por incrença que parível, não há separação, não há inimigo
E sim, a ignorância aguda, falta de aprendizado e só
Pois somos literalmente parte do mesmo organismo
Como já disse cristo, a filosofia oriental, o tao, e a física quântica
Esse sim o caminho, o caminho pelo qual o racional cartesiano e o espiritual finalmente se encontram
Preste atenção, analise não é difícil, (tudo é vai e volta),
Ação, palavra, pensamento, atitude, (tudo é vai e volta),
Metafisicamente, sub-atômicamente, (tudo é vai e volta),
tem responsa pra fazer, tem que ter responsa pra aturar, (tudo é vai e volta),
Lucro abissal, frescura é ligar pra detonação ambiental (tudo é vai e volta)
Seu pulmão no limite, inverno moderno beira os 40 graus (tudo é vai e volta)
Não divida o bolo, e veja crescer à sua volta o caos (tudo é vai e volta)
Negatividade, positividade: o seletor é você (tudo é vai e volta)
terça-feira, 21 de outubro de 2008
segunda-feira, 13 de outubro de 2008
Disfunção erétil das emoções
E eu fiz essa merda giganta. E pior do que a merda feita foi a não percepção de que ela estava ali, fodendo com algo tão precioso. E não havia nada que eu pudesse fazer para reverter a situação. A resposta foi um "até logo" com uma cara de "tchau" e porra. De que me adiantou tanto esforço? Pro caralho os mal entendidos, os ruídos e as expectativas. Eu tenho raiva, eu tenho idiotices, dificuldades, traumas e feridas curtidas. Mas eu tenho amor, tenho amor saindo pelos ouvidos, pelos olhos, pela boca. E me fodi, me fodi bonito, porque eu não soube. Eu não soube como usar essa coisa toda que me transborda e agora eu to sem chance pra aprender. Quero tentar ser diferente de mim mesmo, ser pelo menos uma daquelas mil e quinhentas que cabem entre aquela que eu sou agora e a que eu quero ser. Quero voltar pro outro dia, acordar feliz e falar isso na cara. Quero aprender a cavucar lá no fundo e resolver essas pinimbas que me impedem de crescer. Enquanto isso eu vou fazendo merda e fodendo os alheios? To fora. Só preciso encontrar uma maneira de varrer toda essa merda do portão, jogar no lixo e deixar o caminhão levar pra longe.
domingo, 12 de outubro de 2008
Di goiaba
Chovia e eu tinha saído de casa com a roupa que estava quando acordei. Como estava descalça, ia flutuando, com fortes impulsos, para não molhar o pé na calçada suja, enquanto você ia um pouco atrás de mim, tomando conta. No entanto, precisei atravessar a rua e não podia parar de flutuar e o impulso foi mais forte que os outros e eu deslizei, deitada, no chão molhado, até parar, segura, na calçada da praça e você chegou para me levantar.
Acordei e aquela sensação antiga voltou. Aquele liquidificador ligado dentro do meu estômago, a lágrima quase que instantânea, a dor do silêncio real, do mundo da vigília, que não perdoa, que não realiza desejos.
Sou uma exagerada na vida e estava aprendendo a comedir. Aprendendo a viver devagar, a usar os fones de ouvido, esperar uma coisa de cada vez e agora eu só quero uma coisa, todo o tempo, mais uma vez, como se de nada tivesse adiantado tanto exercício.
Ainda não abri a janela. Não quero descobrir que não está chovendo, porque alguma coisa, ah... alguma coisa há de ser verdade.
Acordei e aquela sensação antiga voltou. Aquele liquidificador ligado dentro do meu estômago, a lágrima quase que instantânea, a dor do silêncio real, do mundo da vigília, que não perdoa, que não realiza desejos.
Sou uma exagerada na vida e estava aprendendo a comedir. Aprendendo a viver devagar, a usar os fones de ouvido, esperar uma coisa de cada vez e agora eu só quero uma coisa, todo o tempo, mais uma vez, como se de nada tivesse adiantado tanto exercício.
Ainda não abri a janela. Não quero descobrir que não está chovendo, porque alguma coisa, ah... alguma coisa há de ser verdade.
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à beira de.,
Jovem Guarda,
meu mundo se agita quando eu durmo,
nó
domingo, 5 de outubro de 2008
verborrágica entre parêntesis
E sempre chega aquele dia de fazer alguma coisa pela primeira vez. Pensando bem, não era a primeira vez que martelava na cabeça a sensação de que sozinha era uma condição que precisava absorver. Teve a caminhada na ciclovia, estréia da sensação dos fones de ouvido, símbolo-mor daqueles que não precisam de companhia para estarem em algum lugar. Só de pensar que na bolsa estava abrigado o tal aparelho solitário e cogitara a hipótese de sacá-lo agora, nesse momento, podia ouvir o grito afirmativo da solidão que arranhava o peito, ainda que de dentro para fora.
*
E aquelas pias "automáticas" que só precisam que você aperte a torneira e espere a água parar de jorrar? Estão me fazendo passar vergonha quando me deparo com uma pia tradicional.
*
O bacana disso aqui é a falta de compromisso. Posso mudar de asunto e não falar sobre ontem. Às vezes eu acho que essa é a vida que me faria feliz: nunca falar sobre ontem.
*
E se eu quiser, também, falo até sobre semana passada. Porque quem manda aqui sou eu.
*
No exato momento em que ele disse pro motorista parar um pouco, pois ela só ia fazer xixi e continuaria a seguir no taxi, ela se deu conta da infinidade de mundos que devem existir por aí. Queria partir de caminhão e cuia pro mundo em que esse episódio não doesse como topada na ponta do dedão da alma.
*
teve câncer, teve enterro, teve amor, culpa, medo, recaída. teve um ano, uma vida nesses dois meses de silêncio de alma virtual. a alma palpável, por sua vez, berra cada dia mais alto.
*
Por onde eu ando, o mundo parece pequeno e infinito. Porque o fato de não acabar não torna a coisa imensa, automaticamente.
*
Enquanto esse carrossel não resolver, pelo menos reduzir a velocidade do giro, vai ser foda eu funcionar normalmente no horário comercial.
*
Ela tinha uma técnica infalível, que chamava de "hipnose de gente burra". Era maravilhosa, por sinal.
*
Aí tem aquele que pergunta se eu tenho um blog e fala: JURA QUE VOCÊ TEM UM BLOG? (e eu podia jurar que essa pergunta só é feita quando a pessoa acha muito razoável e até previsível que você tenha um blog) QUAL É O ENDEREÇO? Aí eu pergunto se tem papel e nunca têm papel e por que cargas d´água pedem endereço do blog se não têm papel para anotar? Aí eu falo (sabendo que virão me perguntar de novo, pois ninguém decora), e aviso logo que não posto nada há um tempo. Aí depois (uns dois dias depois), vem um e-mail (ou um scrap) pedindo o endereço porque digitou palavradaalma.zip.net e não era meu blog. (A parte do zip.net sempre tem grandes chances de ser culpa minha, verdade seja dita. Desconheço o motivo, mas a verdade é que eu cismo que o endereço acaba com zip.net.)
Depois o cidadão comenta que lembrou muito do filme baseado no blog, que eu podia fazer um filme também. E perguntam se eu abandonei, pois o último texto é de muito tempo atrás.
(e não foi esse o primeiro aviso que eu dei, antes de passar o endereço para o infeliz?)
E falam que eu tenho um quê de Fernanda Young.
(aí o sujeito já ganha a minha antipatia: FY é a caralha!)
Tem uma atriz também que fala igualzinho a minha escrita. E putz, teve uma professora que usava essa mesma ironia que eu.
Acontece que todo mundo é igual, no fim das contas. Tá todo mundo reclamando de grana, querendo ter mais tempo no dia, precisando abraçar a mãe. A gente xinga as mesmas pessoas, ainda somos os mesmos, fazemos careta pro colega e, quando acaba a luz, rola aquele medo de um segundo.
Tá geral investindo nas estruturas falidas, tentando acreditar no amor, fingindo que não ouviu a ofensa pra não ficar sozinho, cortando gordura pra poder comer mais açúcar porque precisa emagrecer praquele casamento.
Não tem um ileso ao desejo de jogar tudo pro alto, de correr pelado no exterior, de mandar alguém pra putaquiupariu.
Depois o cidadão comenta que lembrou muito do filme baseado no blog, que eu podia fazer um filme também. E perguntam se eu abandonei, pois o último texto é de muito tempo atrás.
(e não foi esse o primeiro aviso que eu dei, antes de passar o endereço para o infeliz?)
E falam que eu tenho um quê de Fernanda Young.
(aí o sujeito já ganha a minha antipatia: FY é a caralha!)
Tem uma atriz também que fala igualzinho a minha escrita. E putz, teve uma professora que usava essa mesma ironia que eu.
Acontece que todo mundo é igual, no fim das contas. Tá todo mundo reclamando de grana, querendo ter mais tempo no dia, precisando abraçar a mãe. A gente xinga as mesmas pessoas, ainda somos os mesmos, fazemos careta pro colega e, quando acaba a luz, rola aquele medo de um segundo.
Tá geral investindo nas estruturas falidas, tentando acreditar no amor, fingindo que não ouviu a ofensa pra não ficar sozinho, cortando gordura pra poder comer mais açúcar porque precisa emagrecer praquele casamento.
Não tem um ileso ao desejo de jogar tudo pro alto, de correr pelado no exterior, de mandar alguém pra putaquiupariu.
*
Outro dia eu conto o que aconteceu com o terapeuta.
quarta-feira, 6 de agosto de 2008
Onde desliga?
O professor de spinning me entrega meu celular piscando: alguém me liga e não aparece nenhum nome no visor; apenas um número desconhecido. Faço que não vou atender, mas atendo dizendo logo que não posso falar e era a esposa do meu terapeuta avisando que ele não poderá me atender amanhã e que quando puder me liga e eu desligo o telefone quase saindo da bicicleta e volto para a aula morrendo de vergonha. Quem, meu deus, quem atende celular na aula de spinning e vai logo falando que não pode falar, ofegante, música alta tocando, por que atendeu então e não esperou o recado na caixa postal? Ossos do ofício, percalços da ansiedade. Ou muda, ou acata, mulher! Chega de ficar se maldizendo e reclamando. Atendeu, pronto, já foi. Acelera. Bota carga. Terceira posição. Recupera, bebe uma água. E o sonho que eu tive na noite de domingo e estava esperando para contar? Quem vai ouvir que eu sonhei que não conseguia levantar da cama no dia do meu aniversário para ir trabalhar porque estava em prantos por envelhecer? E que eu tinha aula de educação física no trabalho e o professor era o Bernardinho do voley, que não me dispensava da aula porque eu estava em crise e dizia que 'Hoje é o dia que você mais precisa treinar. Se tivesse que escalar um time hoje, você estaria nele, porque não posso deixar que você volte para casa."? Preciso dizer que nunca fui tão blasé em relação a um aniversário e já tinha achado isso ano passado, e que achei meu primeiro tufo de cabelos brancos e que, cara... o Bernardinho era o meu treinador... o meu pai me levava até o trabalho e eu não parava de chorar um segundo, tava de pijama rosa e eu nem tenho pijama rosa... o Bernardinho... É a segunda vez que o cara desmarca a sessão. Eu sei que ando muito chata, mas a ponto de espantar o terapeuta? No dia do pagamento? Não... eu dei azar, claro. Ele tava completamente afônico na sessão passada, até pediu pra mulher me ligar... vai ver é uma amigdalite muito forte, ele pode estar de cama, moribundo, pode até morrer. Puta merda. Ele não pode morrer, não agora, assim, no início do tratamento. É só uma dor de garganta forte, está sem voz, com febre. Porque esses freudianos não atendem por msn em casos de problemas de garganta ou doenças infectocontagiosas? Muito tradicionais, esses terapeutas... E se ele estiver com uma doença tipo difteria? E se ele morrer? Que medo dele morrer agora, mas se for morrer, também, que seja agora, assim, no início, não tem muito vínculo... porra, Carol, que mente doentia a sua, relaxa, o cara tá mal, você deu um azarzinho, coisas que acontecem... só comigo. Quem mais teria um terapeuta mudo no auge do inferno astral com retorno de Saturno e tufos de cabelos brancos e sonhos com o Bernardinho? Acelera. Bota carga. Terceira posição. Recupera, bebe uma água. Alonga. Belíssima aula, pessoal, até sexta.
segunda-feira, 28 de julho de 2008
r e s s a c a
Completamente bêbada. A cabeça era um vidro cheio de areia que ia de um lado para o outro, conforme ela olhava para os lados. O corpo fedia a cigarros e o desejo era vomitar a própria boca, expulsando aquele gosto de derrota que a fazia perceber o que tinha sido a sua noite.
Agora, sentada na cama, olhava em volta e não reconhecia as paredes do ambiente. Veio o medo do que teria feito em meio a tanta entorpecência. Olhou para o lado e não havia ninguém lá. Olhou para seu próprio corpo e estava vestida: a calça jeans, a camiseta preta e os brincos estavam intactos; apenas os sapatos não estavam mais no corpo. Olhou para o chão e eles estavam jogados, virados, cada um numa quina do quarto.
A janela denunciava o meio da tarde de dia quente carioca e seus olhos arderam. Coçou a cabeça e levou a mão ao nariz. Embrulho no estômago: seu cabelo parecia ter virado um cinzeiro velho. Dirigiu o olhar para a parede e reconheceu o cartaz do filme Laranja mecânica. Estava em casa, só não sabia como tinha chegado até ali.
A bolsa estava jogada no outro lado da cama e fedia tanto quanto suas mãos, roupas e travesseiro. A carteira ainda estava lá, o celular, a chave...
De onde teria chegado nesse estado? Vontade de chorar, como chegará na sala? Passou antes pelo banheiro e a imagem do espelho a deixou apavorada. Seus olhos estavam muito vermelhos por dentro e por fora, estavam manchados de preto, as remelas eram negras e a boca, completamente ressecada.
A cabeça doía ao simples movimento de escovar os dentes, como se carregasse uma caminhonete na testa. Tirou a roupa e o fedor ficou ouriçado no banheiro - teria virado um cinzeiro humano? Não tirou a calcinha e entrou no boxe. Ligou a torneira e quando a água estava na temperatura ideal, deu o passo que a levaria até o centro do chuveiro, deixando-se molhar por alguns segundos, ocupando sua audição somente com o barulho da água que caía sobre a sua cabeça fedorenta.
Como chegou a esse ponto? Imaginou a situação em que se encontrava antes de se encaminhar para a casa - que ainda não tinha conseguido se lembrar -, onde e com quem estava, como seus amigos puderam deixá-la assim? Quais eram os amigos que estavam ontem com ela? Tentou aquele velho exercício de quando perdemos alguma coisa e tentamos redesenhar todos os nossos passos, desde o início. Lembrou de ontem quando acordou e foi trabalhar. Almoçou naquele quilo barato e meio porcalhão, mas era dia de sopa e o tempero de lá era ótimo. Saiu do trabalho com duas amigas e um amigo e antes de chegarem no ponto de ônibus, pararam para um merecido chopp de sexta feira. Foi em casa, tomou banho e botou a calça jeans, a camiseta preta e os brincos de argola. Encontrou com a... ou foi com o...? E foi para aquele bar... ou boate...? Não fazia idéia. Lavou a cabeça três vezes e ainda sentia o cheiro do cigarro apagado. Lavou o nariz com sabonete, para tirar o cheiro, mas ele não saía. Nunca mais fumaria na vida, estava certa disso, mais uma vez.
Saiu do banho e se enrolou na toalha. Foi para o quarto e ligou o ventilador de teto, no modo de exaustão. Precisava se livrar daquele cheiro. Abriu a janela e se enxugou aos poucos. Se vestiu. Ensaiou os passos para chegar na sala sem que percebessem seu estado.
Quando deu bom dia para os pais e para a avó, todos sentados no sofá da sala vendo o jogo de vôlei, podia ler em seus olhares a mensagem de pena e desgosto por ser tão bêbada e apegada a uma sarjeta. Eles nem falavam mais nada. Responderam o bom dia e a mãe avisou que tinha pão fresco na mesa da cozinha e gelatina na geladeira. Tinha feito desde ontem, mas ela nem comeu quando chegou do trabalho.
Sentada à mesa da cozinha, de frente para a cesta de pães, bebia água num copo de 750 mL, sem coragem de ingerir mais nada que pudesse voltar com força, depois de misturado com aquele cheiro que insistia em permanecer em sua boca. Abriu a gaveta da cozinha e puxou uma cartela de analgésicos. Tirou duas cápsulas e as engoliu com um único gole d'água.
Ressaca moral. Só não sabia do que.
Ainda era meio-dia; mais tarde alguém ligaria para ela assim descobriria como tinha terminado uma noite daquela maneira.
Agora, sentada na cama, olhava em volta e não reconhecia as paredes do ambiente. Veio o medo do que teria feito em meio a tanta entorpecência. Olhou para o lado e não havia ninguém lá. Olhou para seu próprio corpo e estava vestida: a calça jeans, a camiseta preta e os brincos estavam intactos; apenas os sapatos não estavam mais no corpo. Olhou para o chão e eles estavam jogados, virados, cada um numa quina do quarto.
A janela denunciava o meio da tarde de dia quente carioca e seus olhos arderam. Coçou a cabeça e levou a mão ao nariz. Embrulho no estômago: seu cabelo parecia ter virado um cinzeiro velho. Dirigiu o olhar para a parede e reconheceu o cartaz do filme Laranja mecânica. Estava em casa, só não sabia como tinha chegado até ali.
A bolsa estava jogada no outro lado da cama e fedia tanto quanto suas mãos, roupas e travesseiro. A carteira ainda estava lá, o celular, a chave...
De onde teria chegado nesse estado? Vontade de chorar, como chegará na sala? Passou antes pelo banheiro e a imagem do espelho a deixou apavorada. Seus olhos estavam muito vermelhos por dentro e por fora, estavam manchados de preto, as remelas eram negras e a boca, completamente ressecada.
A cabeça doía ao simples movimento de escovar os dentes, como se carregasse uma caminhonete na testa. Tirou a roupa e o fedor ficou ouriçado no banheiro - teria virado um cinzeiro humano? Não tirou a calcinha e entrou no boxe. Ligou a torneira e quando a água estava na temperatura ideal, deu o passo que a levaria até o centro do chuveiro, deixando-se molhar por alguns segundos, ocupando sua audição somente com o barulho da água que caía sobre a sua cabeça fedorenta.
Como chegou a esse ponto? Imaginou a situação em que se encontrava antes de se encaminhar para a casa - que ainda não tinha conseguido se lembrar -, onde e com quem estava, como seus amigos puderam deixá-la assim? Quais eram os amigos que estavam ontem com ela? Tentou aquele velho exercício de quando perdemos alguma coisa e tentamos redesenhar todos os nossos passos, desde o início. Lembrou de ontem quando acordou e foi trabalhar. Almoçou naquele quilo barato e meio porcalhão, mas era dia de sopa e o tempero de lá era ótimo. Saiu do trabalho com duas amigas e um amigo e antes de chegarem no ponto de ônibus, pararam para um merecido chopp de sexta feira. Foi em casa, tomou banho e botou a calça jeans, a camiseta preta e os brincos de argola. Encontrou com a... ou foi com o...? E foi para aquele bar... ou boate...? Não fazia idéia. Lavou a cabeça três vezes e ainda sentia o cheiro do cigarro apagado. Lavou o nariz com sabonete, para tirar o cheiro, mas ele não saía. Nunca mais fumaria na vida, estava certa disso, mais uma vez.
Saiu do banho e se enrolou na toalha. Foi para o quarto e ligou o ventilador de teto, no modo de exaustão. Precisava se livrar daquele cheiro. Abriu a janela e se enxugou aos poucos. Se vestiu. Ensaiou os passos para chegar na sala sem que percebessem seu estado.
Quando deu bom dia para os pais e para a avó, todos sentados no sofá da sala vendo o jogo de vôlei, podia ler em seus olhares a mensagem de pena e desgosto por ser tão bêbada e apegada a uma sarjeta. Eles nem falavam mais nada. Responderam o bom dia e a mãe avisou que tinha pão fresco na mesa da cozinha e gelatina na geladeira. Tinha feito desde ontem, mas ela nem comeu quando chegou do trabalho.
Sentada à mesa da cozinha, de frente para a cesta de pães, bebia água num copo de 750 mL, sem coragem de ingerir mais nada que pudesse voltar com força, depois de misturado com aquele cheiro que insistia em permanecer em sua boca. Abriu a gaveta da cozinha e puxou uma cartela de analgésicos. Tirou duas cápsulas e as engoliu com um único gole d'água.
Ressaca moral. Só não sabia do que.
Ainda era meio-dia; mais tarde alguém ligaria para ela assim descobriria como tinha terminado uma noite daquela maneira.
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