O primeiro pensamento de quando acordei hoje foi “Ela trouxe uma vodca da Rússia”. Quem é ela? Não sei. Qual vodca? Não sei também, mas lembrei que outro dia acordei com a piada do coala e da lagartixa como primeiro pensamento do dia. E, outro dia, acordei pensando: “sete!”. Sete o que? Vai saber.
Estava pensando o que poderiam ser sete dentro dos meus sonhos, enquanto entrava no mercado sem perceber o quão vazio ele estava.
Fui direto no balcão e pedi o que era de balcão.
Sete pãezinhos? Sete salsichas?
Enquanto isso, mantinha o sorriso cotidiano que pretende indicar que sou alguém legal: bom dia, obrigada, bom trabalho, opa maravilha.
Mercado vazio, enfim percebi e comemorei, aproveitando para entrar na ala das coisas que nunca compro, como guloseimas importadas e bebidas de duty free. Olhar os rótulos coloridos, os rótulos sóbrios, as embalagens em tons de marrom e caramelo, imagens de amêndoas e cremes de baunilha quase amarelos.
No que estava pensando mesmo?
Puxo um biscoito na promoção, embalagem colorida, sem glúten, sem lactose, sem adição de açúcares, adoçado com fruta e amor.
Implico.
Devolvo.
Sigo pelas alas implicando com o biscoito adoçado com amor.
As barras de chocolate parecem menos idiotas e uma vai para a cestinha.
Eu sei que estava pensando em algo que parecia importante, mas não consigo lembrar.
Um sapato solto no chão, sem dono aparente. Olho em volta, é um sapato adulto, um sapato social masculino.
Fico pensando nos caminhos que esse sapato pode ter percorrido até chegar ali: a unha encravada do advogado incomodou no limite, ele ficou cego de dor e largou o sapato sem pensar, vai chegar em casa contando isso e ninguém acreditará, apenas a filha caçula de 5 anos que desenhará o sapato voando num cenário de montanha verde e árvores; o sapato caiu de uma bolsa de ginástica, o homem tinha saído do trabalho direto para a academia e não viu o buraco descosturado da mochila.
Quando dei por mim, estava já fora do mercado, com a sacola cheia de coisas que não lembrava de ter pego, será que paguei?
A notinha dentro da sacola me alivia: está pago.
Nossa, tudo isso, como as coisas estão caras.
Atravesso a rua pensando que a minha vida não serve de nada.
Serve, sim.
ResponderExcluirMaravilhoso o texto.
Obrigada por este retorno.