segunda-feira, 25 de agosto de 2025

O caminho que a cabeça faz

O primeiro pensamento de quando acordei hoje foi “Ela trouxe uma vodca da Rússia”. Quem é ela? Não sei. Qual vodca? Não sei também, mas lembrei que outro dia acordei com a piada do coala e da lagartixa como primeiro pensamento do dia. E, outro dia, acordei pensando: “sete!”. Sete o que? Vai saber.

Estava pensando o que poderiam ser sete dentro dos meus sonhos, enquanto entrava no mercado sem perceber o quão vazio ele estava. 

Fui direto no balcão e pedi o que era de balcão. 

Sete pãezinhos? Sete salsichas? 

Enquanto isso, mantinha o sorriso cotidiano que pretende indicar que sou alguém legal: bom dia, obrigada, bom trabalho, opa maravilha. 

Mercado vazio, enfim percebi e comemorei, aproveitando para entrar na ala das coisas que nunca compro, como guloseimas importadas e bebidas de duty free. Olhar os rótulos coloridos, os rótulos sóbrios, as embalagens em tons de marrom e caramelo, imagens de amêndoas e cremes de baunilha quase amarelos. 

No que estava pensando mesmo?

Puxo um biscoito na promoção, embalagem colorida, sem glúten, sem lactose, sem adição de açúcares, adoçado com fruta e amor. 

Implico. 

Devolvo.

Sigo pelas alas implicando com o biscoito adoçado com amor. 

As barras de chocolate parecem menos idiotas e uma vai para a cestinha. 

Eu sei que estava pensando em algo que parecia importante, mas não consigo lembrar. 

Um sapato solto no chão, sem dono aparente. Olho em volta, é um sapato adulto, um sapato social masculino. 

Fico pensando nos caminhos que esse sapato pode ter percorrido até chegar ali: a unha encravada do advogado incomodou no limite, ele ficou cego de dor e largou o sapato sem pensar, vai chegar em casa contando isso e ninguém acreditará, apenas a filha caçula de 5 anos que desenhará o sapato voando num cenário de montanha verde e árvores; o sapato caiu de uma bolsa de ginástica, o homem tinha saído do trabalho direto para a academia e não viu o buraco descosturado da mochila. 

Quando dei por mim, estava já fora do mercado, com a sacola cheia de coisas que não lembrava de ter pego, será que paguei? 

A notinha dentro da sacola me alivia: está pago. 

Nossa, tudo isso, como as coisas estão caras. 

Atravesso a rua pensando que a minha vida não serve de nada.

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