sexta-feira, 29 de agosto de 2025

A organização das coisas de água e vento

 As ondas do mar do vinham de todos os lados e eu olhava da areia, esperando estourarem em asterisco, mas elas viravam uma só linha de espuma de sal, água e areia.

O silêncio.

terça-feira, 26 de agosto de 2025

Memória em pó

 

Dia desses e vinha lembrando que gostava de escrever palavras a esmo no simples fluir de preencher espaços em papéis periféricos a mim, enquanto falava ao telefone ou esperava algo acontecer.

Era como se sentisse que tinha coisas a dizer, como se gostasse dos meios com os quais arrumava as palavras para que chegassem a algum lugar. Que chegassem bem.

De uns tempos pra cá, venho achando isso muito ruim, pois não tenho nada a dizer hoje, além do como fazer dizer. Assim se faz, paradoxalmente, minha habilidade profissional: arrumar bem o que os outros dizem, mal.

 

Procuro me distrair e a distração me atropela.

Viajo na criança que diz: “voz de algodão doce”. Brinco com as unhas da mão pra não ter o que pensar. Hoje, tive pouca fome e chorei, de solidão, mas também fiz um bom treino de corrida que rendeu elogio do professor. Bebi quase (ou mais de) cinco litros de água.

Pensei nos remédios receitados e no que combinei para amanhã.

Quero desmarcar tudo.


Chorei porque esperei e me perguntei, assim como Clarice: Que sentimento é esse? Como se chama quando sofre por esperar o que nem se sabe se quer? Sequer sabe. Lembrei agora que gosto de ver brincadeiras com palavras e que já fui boa nisso. Fui boa mesmo. “Não é síndrome do impostor quando se é realmente incompetente”.

Lembrei que hoje lembrei, no trabalho, que já trabalhei, literalmente, com palavras.

Como se trabalha, literalmente, com palavras? Fazendo definições de palavras cruzadas, quando precisei elaborar três definições diferentes para “amendoim” e as definições só poderiam levar a “amendoim”: nada mais podia caber nelas. Nessa toada acabei sabendo da existência de um clube de amendoim.

Mas era isso mesmo?


Minha memória, diferente de mim, anda bastante criativa e tem um sítio em Barbacena, da família das amigas Marcela e Julia, que eu lembro de cada canto. Lembro de ter tomado café, sentada na poltrona da sala. Lembro do carinho que fiz no Mujica, que descansava na mureta da varanda. A maluquice toda disso é que eu nunca fui lá, nunca. Nunquinha. Vi uns vídeos, umas fotos, recusei uns convites, mas nunca pisei no sítio, nunca pisei em Barbacena. O cheiro que eu lembro, o cheiro do quarto cheio de papéis, que juntava com o cheiro do café coado na cozinha, na leiteira azul clara, esse cheiro eu nunca senti, ao menos não no sítio de Barbacena. Nunca estive lá, sequer conheço Barbacena. SEQUER.

 

Tudo isso me faz pensar em será que preciso duvidar das saudades que me acometem?

Aquele afago, aquele ar quente de boca, o guri loirinho que encostei no “amor expresso” do tivoli, porque ninguém quis ir ao meu lado, aquela dor que senti quando o cara da bilheteria disse pra mim “porque eu não quero”, aquele medo que me acordou quando uma suposta assombração me encoxou na madrugada, os constrangimentos todos que garantiriam a mim o prêmio de a maior memória concreta do universo?

Como chama o sentimento de duvidar se sou de verdade? Espero o sono chegar. Estou com os ouvidos tapados com silicone para fugir da calçada que se confunde com o parapeito da minha janela.


Isso é verdade. Ao menos, até amanhã, quando a memória tocar nessas palavras e transformá-las em pó de dúvida.

segunda-feira, 25 de agosto de 2025

O caminho que a cabeça faz

O primeiro pensamento de quando acordei hoje foi “Ela trouxe uma vodca da Rússia”. Quem é ela? Não sei. Qual vodca? Não sei também, mas lembrei que outro dia acordei com a piada do coala e da lagartixa como primeiro pensamento do dia. E, outro dia, acordei pensando: “sete!”. Sete o que? Vai saber.

Estava pensando o que poderiam ser sete dentro dos meus sonhos, enquanto entrava no mercado sem perceber o quão vazio ele estava. 

Fui direto no balcão e pedi o que era de balcão. 

Sete pãezinhos? Sete salsichas? 

Enquanto isso, mantinha o sorriso cotidiano que pretende indicar que sou alguém legal: bom dia, obrigada, bom trabalho, opa maravilha. 

Mercado vazio, enfim percebi e comemorei, aproveitando para entrar na ala das coisas que nunca compro, como guloseimas importadas e bebidas de duty free. Olhar os rótulos coloridos, os rótulos sóbrios, as embalagens em tons de marrom e caramelo, imagens de amêndoas e cremes de baunilha quase amarelos. 

No que estava pensando mesmo?

Puxo um biscoito na promoção, embalagem colorida, sem glúten, sem lactose, sem adição de açúcares, adoçado com fruta e amor. 

Implico. 

Devolvo.

Sigo pelas alas implicando com o biscoito adoçado com amor. 

As barras de chocolate parecem menos idiotas e uma vai para a cestinha. 

Eu sei que estava pensando em algo que parecia importante, mas não consigo lembrar. 

Um sapato solto no chão, sem dono aparente. Olho em volta, é um sapato adulto, um sapato social masculino. 

Fico pensando nos caminhos que esse sapato pode ter percorrido até chegar ali: a unha encravada do advogado incomodou no limite, ele ficou cego de dor e largou o sapato sem pensar, vai chegar em casa contando isso e ninguém acreditará, apenas a filha caçula de 5 anos que desenhará o sapato voando num cenário de montanha verde e árvores; o sapato caiu de uma bolsa de ginástica, o homem tinha saído do trabalho direto para a academia e não viu o buraco descosturado da mochila. 

Quando dei por mim, estava já fora do mercado, com a sacola cheia de coisas que não lembrava de ter pego, será que paguei? 

A notinha dentro da sacola me alivia: está pago. 

Nossa, tudo isso, como as coisas estão caras. 

Atravesso a rua pensando que a minha vida não serve de nada.