sexta-feira, 24 de novembro de 2023

Bom dia.

Perdi. 

O despertador toca e eu já perdi.

O corpo estica como quem procura o que já esteve ali: ânimo, vontade, esperança. 

Mais cinco minutos, só mais cinco. Só mais um igual a esse, e mais um. Perdi para o susto do tempo que passou enquanto os blocos de cinco minutos, tomavam o tempo que estava prometido a etapas que agora já não podem mais ser. 

O olho embaçado, não enxerga as letras e os números, os passos apressados e tortos terminam no vaso, o pensamento ilude: “e se hoje for sábado?” (nunca é sábado). 

Perdi para a pasta de dente que cai na pia, perdi para a escova de dente que vai seca à boca, perdi para o tubo da pasta de dente que cai no chão quando volto a ela depois de ver que a pasta caiu na pia. Perdi para a pia, que quando acordei, estava com a torneira aberta (preciso culpar o fantasma, mas as maiores chances são de que eu tenha também perdido para um xixi na madrugada).

O olho enxerga depois da água, depois da gota. 

As telas acesas, o café quente, o queijo derretido, a janela aberta. 

 O dia começa e eu já perdi.

segunda-feira, 6 de novembro de 2023

Halloween

Amanhecer ainda em sonho entre almas mortas e objetos que andam sozinhos. Prender os pés nas tramas do lençol aos berros como se os dedos estivessem amarrados em corda no fundo do mar sem respiro. Abrir os olhos dentro de uma casa nunca antes vista, a própria casa, mas com aspecto inédito. Monstros, carrancas, gárgulas, anjos do mal. Bombas, barulhos, correria de multidão. Os ombros rígidos cansados pelas inúmeras tentativas de despertar. A janela fechada, a porta fechada, o olho sem saber se já abriu. Solta os dentes trincados, a pouca luz acesa, a incompreensão que se desloca do sonho para o dia que o corpo sente começar pelo meio.