O despertador toca e eu já perdi.
O corpo estica como quem procura o que já esteve ali: ânimo, vontade, esperança.
Mais cinco minutos, só mais cinco.
Só mais um igual a esse, e mais um.
Perdi para o susto do tempo que passou enquanto os blocos de cinco minutos, tomavam o tempo que estava prometido a etapas que agora já não podem mais ser.
O olho embaçado, não enxerga as letras e os números, os passos apressados e tortos terminam no vaso, o pensamento ilude: “e se hoje for sábado?” (nunca é sábado).
Perdi para a pasta de dente que cai na pia, perdi para a escova de dente que vai seca à boca, perdi para o tubo da pasta de dente que cai no chão quando volto a ela depois de ver que a pasta caiu na pia. Perdi para a pia, que quando acordei, estava com a torneira aberta (preciso culpar o fantasma, mas as maiores chances são de que eu tenha também perdido para um xixi na madrugada).
O olho enxerga depois da água, depois da gota.
As telas acesas, o café quente, o queijo derretido, a janela aberta.
O dia começa e eu já perdi.