sexta-feira, 29 de agosto de 2025

A organização das coisas de água e vento

 As ondas do mar do vinham de todos os lados e eu olhava da areia, esperando estourarem em asterisco, mas elas viravam uma só linha de espuma de sal, água e areia.

O silêncio.

terça-feira, 26 de agosto de 2025

Memória em pó

 

Dia desses e vinha lembrando que gostava de escrever palavras a esmo no simples fluir de preencher espaços em papéis periféricos a mim, enquanto falava ao telefone ou esperava algo acontecer.

Era como se sentisse que tinha coisas a dizer, como se gostasse dos meios com os quais arrumava as palavras para que chegassem a algum lugar. Que chegassem bem.

De uns tempos pra cá, venho achando isso muito ruim, pois não tenho nada a dizer hoje, além do como fazer dizer. Assim se faz, paradoxalmente, minha habilidade profissional: arrumar bem o que os outros dizem, mal.

 

Procuro me distrair e a distração me atropela.

Viajo na criança que diz: “voz de algodão doce”. Brinco com as unhas da mão pra não ter o que pensar. Hoje, tive pouca fome e chorei, de solidão, mas também fiz um bom treino de corrida que rendeu elogio do professor. Bebi quase (ou mais de) cinco litros de água.

Pensei nos remédios receitados e no que combinei para amanhã.

Quero desmarcar tudo.


Chorei porque esperei e me perguntei, assim como Clarice: Que sentimento é esse? Como se chama quando sofre por esperar o que nem se sabe se quer? Sequer sabe. Lembrei agora que gosto de ver brincadeiras com palavras e que já fui boa nisso. Fui boa mesmo. “Não é síndrome do impostor quando se é realmente incompetente”.

Lembrei que hoje lembrei, no trabalho, que já trabalhei, literalmente, com palavras.

Como se trabalha, literalmente, com palavras? Fazendo definições de palavras cruzadas, quando precisei elaborar três definições diferentes para “amendoim” e as definições só poderiam levar a “amendoim”: nada mais podia caber nelas. Nessa toada acabei sabendo da existência de um clube de amendoim.

Mas era isso mesmo?


Minha memória, diferente de mim, anda bastante criativa e tem um sítio em Barbacena, da família das amigas Marcela e Julia, que eu lembro de cada canto. Lembro de ter tomado café, sentada na poltrona da sala. Lembro do carinho que fiz no Mujica, que descansava na mureta da varanda. A maluquice toda disso é que eu nunca fui lá, nunca. Nunquinha. Vi uns vídeos, umas fotos, recusei uns convites, mas nunca pisei no sítio, nunca pisei em Barbacena. O cheiro que eu lembro, o cheiro do quarto cheio de papéis, que juntava com o cheiro do café coado na cozinha, na leiteira azul clara, esse cheiro eu nunca senti, ao menos não no sítio de Barbacena. Nunca estive lá, sequer conheço Barbacena. SEQUER.

 

Tudo isso me faz pensar em será que preciso duvidar das saudades que me acometem?

Aquele afago, aquele ar quente de boca, o guri loirinho que encostei no “amor expresso” do tivoli, porque ninguém quis ir ao meu lado, aquela dor que senti quando o cara da bilheteria disse pra mim “porque eu não quero”, aquele medo que me acordou quando uma suposta assombração me encoxou na madrugada, os constrangimentos todos que garantiriam a mim o prêmio de a maior memória concreta do universo?

Como chama o sentimento de duvidar se sou de verdade? Espero o sono chegar. Estou com os ouvidos tapados com silicone para fugir da calçada que se confunde com o parapeito da minha janela.


Isso é verdade. Ao menos, até amanhã, quando a memória tocar nessas palavras e transformá-las em pó de dúvida.

segunda-feira, 25 de agosto de 2025

O caminho que a cabeça faz

O primeiro pensamento de quando acordei hoje foi “Ela trouxe uma vodca da Rússia”. Quem é ela? Não sei. Qual vodca? Não sei também, mas lembrei que outro dia acordei com a piada do coala e da lagartixa como primeiro pensamento do dia. E, outro dia, acordei pensando: “sete!”. Sete o que? Vai saber.

Estava pensando o que poderiam ser sete dentro dos meus sonhos, enquanto entrava no mercado sem perceber o quão vazio ele estava. 

Fui direto no balcão e pedi o que era de balcão. 

Sete pãezinhos? Sete salsichas? 

Enquanto isso, mantinha o sorriso cotidiano que pretende indicar que sou alguém legal: bom dia, obrigada, bom trabalho, opa maravilha. 

Mercado vazio, enfim percebi e comemorei, aproveitando para entrar na ala das coisas que nunca compro, como guloseimas importadas e bebidas de duty free. Olhar os rótulos coloridos, os rótulos sóbrios, as embalagens em tons de marrom e caramelo, imagens de amêndoas e cremes de baunilha quase amarelos. 

No que estava pensando mesmo?

Puxo um biscoito na promoção, embalagem colorida, sem glúten, sem lactose, sem adição de açúcares, adoçado com fruta e amor. 

Implico. 

Devolvo.

Sigo pelas alas implicando com o biscoito adoçado com amor. 

As barras de chocolate parecem menos idiotas e uma vai para a cestinha. 

Eu sei que estava pensando em algo que parecia importante, mas não consigo lembrar. 

Um sapato solto no chão, sem dono aparente. Olho em volta, é um sapato adulto, um sapato social masculino. 

Fico pensando nos caminhos que esse sapato pode ter percorrido até chegar ali: a unha encravada do advogado incomodou no limite, ele ficou cego de dor e largou o sapato sem pensar, vai chegar em casa contando isso e ninguém acreditará, apenas a filha caçula de 5 anos que desenhará o sapato voando num cenário de montanha verde e árvores; o sapato caiu de uma bolsa de ginástica, o homem tinha saído do trabalho direto para a academia e não viu o buraco descosturado da mochila. 

Quando dei por mim, estava já fora do mercado, com a sacola cheia de coisas que não lembrava de ter pego, será que paguei? 

A notinha dentro da sacola me alivia: está pago. 

Nossa, tudo isso, como as coisas estão caras. 

Atravesso a rua pensando que a minha vida não serve de nada.

sexta-feira, 24 de novembro de 2023

Bom dia.

Perdi. 

O despertador toca e eu já perdi.

O corpo estica como quem procura o que já esteve ali: ânimo, vontade, esperança. 

Mais cinco minutos, só mais cinco. Só mais um igual a esse, e mais um. Perdi para o susto do tempo que passou enquanto os blocos de cinco minutos, tomavam o tempo que estava prometido a etapas que agora já não podem mais ser. 

O olho embaçado, não enxerga as letras e os números, os passos apressados e tortos terminam no vaso, o pensamento ilude: “e se hoje for sábado?” (nunca é sábado). 

Perdi para a pasta de dente que cai na pia, perdi para a escova de dente que vai seca à boca, perdi para o tubo da pasta de dente que cai no chão quando volto a ela depois de ver que a pasta caiu na pia. Perdi para a pia, que quando acordei, estava com a torneira aberta (preciso culpar o fantasma, mas as maiores chances são de que eu tenha também perdido para um xixi na madrugada).

O olho enxerga depois da água, depois da gota. 

As telas acesas, o café quente, o queijo derretido, a janela aberta. 

 O dia começa e eu já perdi.

segunda-feira, 6 de novembro de 2023

Halloween

Amanhecer ainda em sonho entre almas mortas e objetos que andam sozinhos. Prender os pés nas tramas do lençol aos berros como se os dedos estivessem amarrados em corda no fundo do mar sem respiro. Abrir os olhos dentro de uma casa nunca antes vista, a própria casa, mas com aspecto inédito. Monstros, carrancas, gárgulas, anjos do mal. Bombas, barulhos, correria de multidão. Os ombros rígidos cansados pelas inúmeras tentativas de despertar. A janela fechada, a porta fechada, o olho sem saber se já abriu. Solta os dentes trincados, a pouca luz acesa, a incompreensão que se desloca do sonho para o dia que o corpo sente começar pelo meio.

segunda-feira, 30 de outubro de 2023

Memória de ti

É como se os elementos nunca estivessem alinhados à organização com que se apresentam diante dos meus olhos. Na cabeça, seu olho está entre os peitos e o umbigo. Sai também um dedo, cinco dedos saem da sua orelha. Uma língua desce por seus ombros e talvez essa língua seja minha, que se intrometeu justo onde estou tentando lembrar. As pontas das unhas guardam pouco espaço com a pele e escurecem ao chegar em seu final. São dedos das mãos e dos pés firmes no tornozelo, ou no chão do banheiro. O seu tronco anda sozinho quando chega flutuando pela areia da praia e mostra os ombros, enquanto escondeu a língua em outro lugar. Talvez você seja um monstro disforme e sejam os meus olhos a me enganar, a forjar uma organização que nunca havia existido, até a minha pupila cismar com este trote de quinta categoria. Na cabeça, seu olho também salta dos mamilos, os seus mesmo. Os meus, quando os fecho fazendo escuro, são aqueles olhos, os dos seus mamilos, que abrem e fazem enxergar a bagunça que é a memória de ti. (03/22)

sexta-feira, 6 de outubro de 2023

BORBOLETAS, MOSCAS E BESOUROS


Tinha tempo que não me encontrava.

Mas, foi virando a esquina de todo dia que, quase sem querer, me viu. Era um caminho que seguia diariamente e o cotidiano tem o super poder de tornar invisível tudo que o permeia; as pessoas passam a ser como moscas ou borboletas que passam voando dentro do nosso campo de visão e não sabemos se são moscas, borboletas ou besouros, sendo apenas manchas em movimento na paisagem, que também não tem mais forma definida. Mas, ali, quis saber se era mosca, borboleta ou besouro, forçando o foco da visão.

O primeiro elemento identificado foi a fumaça de cigarro que saía de sua boca e sumia em poucos segundos no ar. O lábio que soltava a fumaça rapidamente se fez em sorriso, mostrando que havia reconhecido quem estava diante de si, antes de que esse reconhecimento se tornasse recíproco. Depois do lábio, todo o corpo e toda a pessoa tornaram-se significado e ali poderiam dizer que se esbarravam depois de muito tempo.

“Apenas um cumprimento educado, oi tudo bem?, e saio” – essa era a certeza. Do outro lado, outra tragada. Antes que pudesse terminar sua frase, a mão sem cigarro pegou o braço, puxando seu corpo para uma saudação mais calorosa. Os dois beijinhos, protocolo paradoxal do cotidiano carioca, acarretaram um tremor interno que conhecia bem e sabia que conseguia lidar, sem deixar transparecê-lo a quem estivesse do lado de fora. Ainda assim, porém, preferia não tê-lo sentido. Findados os mais longos dois beijinhos da história, a mão sem cigarro continuava segurando o braço, o sorriso aroma Marlboro estava a pouco mais de um palmo de distância da cabeça e a pergunta “tudo bem” não é mais vazia: uma resposta informativa se desenrolava. Nos ouvidos, o relato sobre uma mudança de apartamento estava a um passo da pergunta “borboleta, mosca ou besouro?”. Apenas consentia com a cabeça, na intenção de que o sorriso forçado desse conta da simpatia exigida pela frugalidade dos encontros casuais nas esquinas de todo dia.

Depois de “E você, como está?” a resposta “Bem, está tudo correndo bem com as coisas todas” não tinha nenhuma conexão com o que passava em pensamentos, mas comunicaria de forma eficaz fosse com moscas ou borboletas, fazendo com que cada mancha retomasse seu prumo de coadjuvante à paisagem alheia. Mas aquele dia não estava parecendo aceitar a imperceptibilidade dos outros dias e veio outra pergunta: “E como estão seus textos?” com os lábios em sorriso, fumaça e articulação de sons, simultaneamente. Não queria falar sobre eles nem sobre si, mas também não queria soar monossilabicamente adolescente.

“Estão indo bem, consegui organizar os antigos e...” o que será que disse mais, enquanto passeava os olhos por sobre acima de suas cabeças, como quem procura a ave que lhe cagou a camiseta. Aquela esquina, há até bem poucos minutos, seria uma esquina de sempre.

“Bom, foi bom te ver, mas eu realmente estou com pressa”. Finalmente conseguia dar fim àquela interação infernal, restando-lhe apenas remoer suas respostas idiotas ao longo do dia. Mas, como ao que tudo indicava, aquele besouro ou mosca (não seria uma borboleta) não estava disposto a desgrudar do braço e, com uma última e profunda baforada, lançou-lhe o tiro de misericórdia: “Agora, estamos mais perto, vamos tomar um chopp, vou ligar para você.”

Dez passos depois, uma olhadela para trás. Assim confirmava que os dois não estavam mais no mesmo cenário – a esquina e seu poder de sumir com carros, pessoas e até montanhas –, e podia cheirar o braço, atestando que, até o momento do encontro, o cigarro estava na mão que o segurou. Da bolsa é sacado o álcool spray, que borrifou umas cinco vezes, esfregando o braço com a outra mão. Novamente, cheirava o braço, enquanto pensava em voz alta: “Era um percevejo”.

Escape

A expressão que não cabe


TENTA CABER

No canto

Na folha

No bloco



A expressão que não cabe

QUEBRA


a forma
a nota
o traço




A expressão que não cabe

ELA



um

jeito

.

Escape.

A ASSUSTADORA MÁQUINA DO TEMPO

 

29 Setembro 23, exposição Evandro Teixeira. Chile 1973.


Imagens em cinzas, preto e branco, borradas, nítidas, cruas. Nas faces dos presos, manchas foscas e pretas onde deveriam ser olhos de sonho, em algum momento.

Seja pela idade da foto, seja pelo passado do tempo, as salas abrigam imagens sombrias. Um fantasma que parecia morto volta a nos assombrar, dando a entender que não dará descanso a quem se preocupa com a vida.


Foto: Uma das salas da exposição Evandro Teixeira. Chile 1973, no CCBB.

#pracegover: Foto de uma das salas do CCBB, com monitores pendurados no teto e pessoas paradas diante deles. Os monitores exibem as fotos em preto e branco do fotógrafo Evandro Teixeira. 

Tanques, fardas, gatilhos, olhos borrados em manchas pretas foscas. Duas libélulas em deboche, como quem alerta para o ar ao redor: tem espaço!

Foto: https://almalondrina.com.br/libelulas-sobre-baionetas-o-olhar-impetuoso-de-evandro-teixeira/

#pracegover: Foto de Evandro Teixeira: Ao ar livre, durante o dia, metades superiores de três baionetas, lado a lado. Em duas delas, duas libélulas pousam, uma em cada uma de suas pontinhas. Ao fundo, copas de árvores e uma cidade desfocada. 


Mas com a morte, essa assustadora máquina do tempo não tem o menor cuidado e congela a dor de um veneno de mundo da despedida do que nunca deveria ser proibido ou aniquilado.

#pracegover

Foto: Marca da bomba de gás lacrimogêneo, ou artefato de protesto, avenida Rio Branco, Rio de Janeiro, RJ, 21.06.1968

#pracegover: Foto da foto na exposição do CCBB. Visto de cima, homem de terno caminha em rua de asfalto, entre duas faixas brancas da pista. A poucos passos atrás dele, a luz da explosão se espalha.

Pido silencio.


#pracegover

Foto: Parede do CCBB, poema Pido Silencio, de Pablo Neruda.

#pracegover: IDO SILENCIO AHORA me dejen tranquilo. Ahora se acostumbren sin mí.  Yo voy a cerrar los ojos  Y sólo quiero cinco cosas, cinco raices preferidas.  Una es el amor sin fin.  Lo segundo es ver el otoño. No puedo ser sin que las hojas vuelen y vuelvan a la tierra.  Lo tercero es el grave invierno, la lluvia que amé, la caricia del fuego en el frío silvestre.  En cuarto lugar el verano redondo como una sandía.  La quinta cosa son tus ojos, Matilde mía, bienamada, no quiero dormir sin tus ojos, no quiero ser sin que me mires: yo cambio la primavera por que tú me sigas mirando.  Amigos, eso es cuanto quiero. Es casi nada y casi todo.  Ahora si quieren se vayan.  He vivido tanto que un día tendrán que olvidarme por fuerza, borrándome de la pizarra: mi corazón fue interminable.  Pero porque pido silencio no crean que voy a morirme: me pasa todo lo contrario: sucede que voy a vivirme.  Sucede que soy y que sigo.  No será, pues, sino que adentro de mí crecerán cereales, primero los granos que rompen la tierra para ver la luz, pero la madre tierra es oscura: y dentro de mí soy oscuro: soy como un pozo en cuyas aguas la noche deja sus estrellas y sigue sola por el campo.  Se trata de que tanto he vivido que quiero vivir otro tanto.  Nunca me sentí tan sonoro, nunca he tenido tantos besos.  Ahora, como siempre, es temprano. Vuela la luz con sus abejas.  Déjenme solo con el día. Pido permiso para nacer..

Com os olhos cheios de ar, saí da sala, tentando segurá-los entre os lábios apertados de constrangimento por chorar em público.

Foto diurna da cúpula do CCBB do Rio de janeiro tirada de dentro do prédio. Através da cúpula, o céu está azul.

 Foto: CCBB

#pracegover:Foto diurna da cúpula do CCBB do Rio de janeiro tirada de dentro do prédio. Através da cúpula, o céu está azul.

 


 


A re-volta dos que nunca saíram do lugar.

 Reencontrei esta hospedagem e farei uma faxina para me alojar. 

Buscando hospedagens para exercitar novamente a escrita, me deparei com esse blog calado já há uns anos – desde 2015; escrevo este perfil em 2023. A ideia é gerar uma versão digitada de meus caderninhos riscados. 

 "Sintam-se em casa, mas lembrem-se de que não estão" (Autor desconhecido)

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Enquanto. Em quanto? E quando?

Essa coisa de que o tempo ensina é tão verdade quanto mentira. Passa o tempo e a gente entende porque acostuma, acaba por aceitar o que nos é inevitável. Nunca se sabe quando parar, quando tentar de novo, quando abraçar o mundo, como cruzar as linhas de chegada. Essa coisa de esperar é balela; o tempo caga pra todo mundo, a vida é que se faz em função dele. E as interrogações, e os medos, e os sustos. As mortes. Surpresas estranhas depois de mergulhos em águas cristalinas de lugares onde o celular não pega. As emoções não são assim tão enormes como a gente vê na televisão. A vida engana a gente, a gente cai feito pato e acha que perdeu. A verdade, eu acho, é que as coisas são pequenas, bobas, silly things! Esse olho grande que nos ensinam a ter, ah, esse sim faz merda. Ilude que o mundo é azul, as nuvens são passageiras e que rola um treco que chama bonança depois da velha e conhecida tempestade. A bonança que ninguém viu, que geral desconhece. A filosofia que tava certa e perguntava sem responder. Porque é o que a gente faz o tempo todo, enquanto insiste em negritar a tempestade, passando batido o olhar na bonança, com aquela leitura dinâmica de merda que costuma-se ter do dia comum. O tempo continua cagando pra nós e pros nossos cursos de gerenciamento, de otimização e de controle. Não tem curso, não tem freio, não tem escola. Tem tempo, enquanto houver criança, enquanto houver passarinho.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

ado. a-ado. cada um no seu quadrado.

Ele chegou e a casa estava vazia. A mulher não estava nua, pronta para recebê-lo. A cama estava feita, sem nenhuma ruga na colcha: sinal de que não haviam respirado por ali esses três dias que esteve fora. Apoiou definitivamente a mala no chão e ainda pensou duas vezes se tiraria de dentro dela as roupas que iriam para a máquina de lavar ou se deixaria para depois, tomando logo o banho que o calor da cidade tornava urgente.

Com um pé arrastando o calcanhar do outro lado, tirou cada tênis e os dedos suados encolheram-se, experimentando a liberdade depois das 3 horas e meia de viagem. Estava tudo do jeito que deixara. Até o livro na diagonal, posição escolhida intencionalmente, para ter certeza, na chegada, se a casa tivera ou não recebido alguma visita.

Ela não foi; a recusa se fez concreta. A mulher disse não e agora ele estava sem abraço. Sabia que o desejo dela era o de ter ido junto, participado da viagem, mas isso ele não poderia oferecer: esse convívio não cabia no gostar que ele tinha reservado para ela. E cada um gostava sozinho, um do outro, ainda que ao mesmo tempo, juntos. Ele percebia o quanto aquela mulher olhava dentro de seus olhos e pedia com o corpo para que ele a amasse. Ele entendia, mas não podia. Se pudesse, não seria mais ele, pois já seria alguém que sentia amor por ela. E ela, por sua vez, deixaria de ser aquela que tinha, na ausência desse amor, o maior brilho de esperança no olhar. Eles precisavam continuar assim para manter a essência que fazia dessa história o que ela realmente era, com seus limites, auges, intervalos.

Ela precisava fugir de casa pois precisava de colo e temia não bastar o cheiro e as cores das paredes. Temia querer ficar e não sair, temia precisar de mais e sabia que essa necessidade não tardaria em aparecer. Suou as têmporas para negar a oferta e agradecer. Dormir no quarto vazio e ouvir os barulhos de fora sem que o ombro sardento a acolhesse parecia sem sentido e tentador.

Deitada na grama, com os olhos apontando para o céu, tentou contar nos dedos os momentos em que quisera dizer algo para alguém e optou por calar-se. Descobriu que eles somavam mais de vinte, seria mais conveniente contar nas gramas, que eram incontáveis. Suspirou alto. Voltou para casa pedalando sob o sol e encontrou o quarto vazio, também. Desejou que ele estivesse pensando nela e pensou mais forte ainda, como que empurrando os átomos do pensamento para o espaço em que ele estivesse ocupando naquele momento, materializando o sorriso que gostaria de, então, oferecê-lo.

Tomaram banho e dormiram ao mesmo tempo, sem um saber do outro. Estavam muito cansados.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Homem nu

O homem nu não está pelado; o homem nu está inteiro.

Ele é de verdade, é rasgado, livre.
O homem nu é despido. De tudo.

O homem nu existe, dá, recebe. Oferece, bebe. O homem nu transcende, homem nu é deleite, é de quatro, é em pé, é sentado. Ele se mexe, sorri, ajeita os óculos. O homem nu tem medo, pede desculpas e sim, o homem nu fica pelado. Homem nu é macho, homem nu é leve; homem nu é bom. Demais.

Homem nu é homem de verdade, uma delícia de verdade de homem, uma verdade de homem delícia.

Homem nu é verbo. Homem nu delicía.

Homem nu é bom de falar. ho-mem-nu. Parece beijo com lambida. Homem nu merece beijo com lambida. Todos os beijos com lambida que uma mulher tenha para dar.

Homem nu pede, homem nu atende, o homem nu é corajoso, homem nu é fogo. Homem nu é lindo, homem nu me treme. Não se encosta no homem nu e ainda assim, se sente. Homem nu me molha, homem nu me olha, homem nu me come, homem nu me tem.

E eu não canso de falar homem nu.

O homem nu é foda.

Meuhomemnu.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Mais uma virginiana.

Ela me deu colo, me deu peito, cama, cafuné, amor. Ela me deu a vida, a luz. Esperou por mim e me embalou enquanto pôde. Curou meus machucados de infância, e, mesmo quando eles apareceram alguns anos depois, o carinho depositado à adulta não foi menor, mais seco ou menos voluntário.

Minha mãe, minha Rose, mãezinha, que hoje faz aniversário.


Parabéns que o dia é seu!

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Está na hora de apagar a velinha...



Meu gigante tem olhos verdes e um cabelão, esvoaçante.

De sorrisão rasgado, roupas estampadas que, combinando com os cabelos, ventam na cadência dos passos largos proporcionados por pernas quase do meu tamanho (o ritmo de minhas pisadas triplicam quando passeamos juntas). Meu gigante taca na minha cabeça umas músicas com partes difíceis de esquecer. Daquelas que a gente fica cantando o mesmo verso por dias seguidos.

Meu gigante interior. Assim foi escalada Dusbalça, Dúsbal, Balceiro, ou apenas Lelê.

Lelê é linda e faz aniversário e eu adoro aniversários, gosto de ver as pessoas que eu amo ganhando presentes, abraços. Gosto de ver meus amigos sorrindo e amanhã é dia de Lelê e por isso pensei bastante num presente bom pras duas: bom de dar e de ganhar.


Não vejo a hora de abraçar essa moça que não presta (ela não é do bem, ok?), de brindar com choppinhos no Monteiro, no Antiga, com pastel, com cantoria. Com os amigos todos. Com amor de verdade saindo pelas orelhas, pelas mãos, pelas baforadas dos cigarros, pelas confissões de bêbado. Pelo prato do dia. Pela Lelê, meu gigantão interior, esvoaçante, linda, olhão verde e sorriso rasgado.

Parabéns, amigona! Loiviul total!!!

Livre-arbítrio hormonal.

Meus hormônios estão zonzos. A menstruação já tá aqui faz tempo e a rabugice persevera. A cólica está como se nada tivesse acontecido e os peitos... porra, eu posso jurar que meus peitos vão sair da blusa e invadir a cidade, atirando em todos os transeuntes. Tudo dói e é frágil.

Hormônios perdidos ao deus dará.

Se alguém encontrar, por favor, mande-os de volta para mim.

nem tão estranho assim.

Ninguém explicou como seria. Ninguém ao menos avisou que aconteceria. Eu, normalmente, duvidaria.

E sem explicação, sem avisos ou dúvidas, o mundo virou de lado. Virou, espelhou, deu cambalhota, mordeu a própria orelha. O mundo que era um agora é outro, mudou de cor, de fuso, de lógica. O toque se fez novo, o cheiro passou a ser hipótese, o calor agora era um só: o outro vinha de um jeito que não dá pra explicar, nem em blog. Os caminhos passaram a ser engraçados, as novidades não faziam tanto sentido e a língua que eu falava ficou estrangeira.

Era como chegar a algum lugar bem desconhecido e se sentir à vontade: não tinham vergonhas ou referências, eram apenas beijos, sonhos, delícias, sorvetes. Sabe aquela vontade de mudar para o Japão, quando tudo vira enfadonho? Então! Fiz a mudança pro Japão de mim, posso afirmar, agora. Mudei de planos, dei meia volta, refiz o retorno e passei pela mesma guarita.

Alguns encontros fazem pensar, outros machucam, outros nem chegam a acontecer e mudam nossas vidas. Foram algumas horas para entender, engolir, suportar.

Precisei de algum tempo - e quem não precisaria? - para absorver esse susto, essa ebulição, essa liberdade de solteira, de moça, de namorada, de amante, de vontade. De ser o que se bebe, o que se come, de ser uma flor, ou uma lajota (caso eu queira descansar meio marrom). Eu posso escolher algumas coisas para que as que não dependem de mim fiquem mais legais ou encaminhadas.

Ou que pelo menos sejam apenas as coisas que não dependem de mim.

Vontade de sair voando.
Impressão de que é possível.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

de 4 (atos).

Inexplicável.

Em palavras, gestos, sons, expressões, interpretações equivocadas, sonhos e suposições, construíra uma verdadeira história de amor em seus pensamentos. Uma história inventada, fantasiada, ilusória. E tão real que poderia descrever o gosto. O cheiro, o toque. Pensava se não estava maluca e, sim, tinha certeza de que estava. Nunca foi tão maluca e tão sensata, certa do que pensava e sentia. Tinha dúvidas e medos, queria previsões certeiras, planos escritos, resultados futuros. Era impossível, e tentava continuar pelo caminho que começara a ser traçado.

Sentia-o em cima, dentro, passando por ela. Sentia a língua babando seu corpo, suas mãos apertando, nariz respirando em suas coxas. Via fantasias realizadas, tudo era possível àquela impossibilidade, àquela distância, àquela quase mentira. A tão verdade que ali rondava, transitando por rodovias terrestres e aéreas, oscilava. Testava sua inteligência e autoconhecimento.

Incompreensível.

Penava. Precisava. Questão de salubridade. Agia como se não existissem limites, amarras, vidas reais. Dava seu jeito no ônibus, em casa, no trabalho, com os amigos. Olhava em volta e tinha o lado azul, quase seguro, das histórias de infância, da saudade que sentia, de sorrir para o olho fechando.

Ela era um sorriso, ele disse. Talvez por isso ela tenha chorado esse dia. De alegria, de saudade. Um choro pela crueldade que a situação vinha impondo, alimentando, evoluindo.

Necessário.

Não sabia mais fugir. Nem queria, e essa era a parte onde o querer estava à vontade: no persistir. Precisava continuar a tocar o corpo, ainda que por meio de uma louca exposição de desejos, de liberdades. Era uma história diferente, um apelo ao seu mais profundo compartimento. E ela vinha cedendo.

Hecatombe.

Ele tinha toda razão. Talvez essa fosse uma das poucas definições possíveis para ela, no momento.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Para onde?

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio – e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?

Carlos Drummond de Andrade recitando o poema

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

A vida é tão rara...

Eu ando meio cansada. Cheia de sono nas horas erradas, agitação descabida, humor oscilante, impaciente.

Pensativa, porém.

Pessoas em volta, antes conhecidas, são agora estranhas e, muitas vezes, enfadonhas. Faltam argumentos e vontade de criá-los para me relacionar com o mundo. Nada de dramas, sensações de fim, de dor. Não peço mais afago às derrotas. A seta aponta para cima, a espontaneidade tenta me guiar e - graças! - muitas vezes, consegue.

Os amores me escapam, o trabalho me entedia; dormir e acordar têm sido exercícios diários, muitas vezes transformados em tarefas árduas e sem data para acabar.

Aí vem uma calma, um vento baiano soprando aqui dentro, uma voz tranquila, dizendo que a hora passa, o dia cai, que tudo acaba. Eu respiro, ouço a noite, subo a ladeira entoando o mantra.

Troco o "tudo de novo amanhã" por "tudo novo amanhã", mesmo que não venha, regando os sentimentos novos, que são melhores que os antigos, ainda que esses últimos tenham servido para brotarem os que eu quero.

Tudo se interliga, uma coisa chama a outra.

Tudo, tudo, tudo vai dar pé.