As ondas do mar do vinham de todos os lados e eu olhava da areia, esperando estourarem em asterisco, mas elas viravam uma só linha de espuma de sal, água e areia.
O silêncio.
As ondas do mar do vinham de todos os lados e eu olhava da areia, esperando estourarem em asterisco, mas elas viravam uma só linha de espuma de sal, água e areia.
O silêncio.
Dia desses e vinha lembrando que gostava de escrever
palavras a esmo no simples fluir de preencher espaços em papéis periféricos a
mim, enquanto falava ao telefone ou esperava algo acontecer.
Era como se sentisse que tinha coisas a dizer, como se
gostasse dos meios com os quais arrumava as palavras para que chegassem a algum
lugar. Que chegassem bem.
De uns tempos pra cá, venho achando isso muito ruim, pois
não tenho nada a dizer hoje, além do como fazer dizer. Assim se faz,
paradoxalmente, minha habilidade profissional: arrumar bem o que os outros
dizem, mal.
Procuro me distrair e a distração me atropela.
Viajo na criança que diz: “voz de algodão doce”. Brinco com
as unhas da mão pra não ter o que pensar. Hoje, tive pouca fome e chorei, de
solidão, mas também fiz um bom treino de corrida que rendeu elogio do
professor. Bebi quase (ou mais de) cinco litros de água.
Pensei nos remédios receitados e no que combinei para
amanhã.
Quero desmarcar tudo.
Chorei porque esperei e me perguntei, assim como Clarice:
Que sentimento é esse? Como se chama quando sofre por esperar o que nem se sabe
se quer? Sequer sabe. Lembrei agora que gosto de ver brincadeiras com palavras
e que já fui boa nisso. Fui boa mesmo. “Não é síndrome do impostor quando se é
realmente incompetente”.
Lembrei que hoje lembrei, no trabalho, que já trabalhei,
literalmente, com palavras.
Como se trabalha, literalmente, com palavras? Fazendo
definições de palavras cruzadas, quando precisei elaborar três definições
diferentes para “amendoim” e as definições só poderiam levar a “amendoim”: nada
mais podia caber nelas. Nessa toada acabei sabendo da existência de um clube de
amendoim.
Mas era isso mesmo?
Minha memória, diferente de mim, anda bastante criativa e
tem um sítio em Barbacena, da família das amigas Marcela e Julia, que eu lembro
de cada canto. Lembro de ter tomado café, sentada na poltrona da sala. Lembro
do carinho que fiz no Mujica, que descansava na mureta da varanda. A maluquice
toda disso é que eu nunca fui lá, nunca. Nunquinha. Vi uns vídeos, umas fotos,
recusei uns convites, mas nunca pisei no sítio, nunca pisei em Barbacena. O
cheiro que eu lembro, o cheiro do quarto cheio de papéis, que juntava com o
cheiro do café coado na cozinha, na leiteira azul clara, esse cheiro eu nunca
senti, ao menos não no sítio de Barbacena. Nunca estive lá, sequer conheço
Barbacena. SEQUER.
Tudo isso me faz pensar em será que preciso duvidar das
saudades que me acometem?
Aquele afago, aquele ar quente de boca, o guri loirinho que
encostei no “amor expresso” do tivoli, porque ninguém quis ir ao meu lado,
aquela dor que senti quando o cara da bilheteria disse pra mim “porque eu não
quero”, aquele medo que me acordou quando uma suposta assombração me encoxou na
madrugada, os constrangimentos todos que garantiriam a mim o prêmio de a maior
memória concreta do universo?
Como chama o sentimento de duvidar se sou de verdade? Espero
o sono chegar. Estou com os ouvidos tapados com silicone para fugir da calçada
que se confunde com o parapeito da minha janela.
Isso é verdade. Ao menos, até amanhã, quando a memória tocar
nessas palavras e transformá-las em pó de dúvida.
O primeiro pensamento de quando acordei hoje foi “Ela trouxe uma vodca da Rússia”. Quem é ela? Não sei. Qual vodca? Não sei também, mas lembrei que outro dia acordei com a piada do coala e da lagartixa como primeiro pensamento do dia. E, outro dia, acordei pensando: “sete!”. Sete o que? Vai saber.
Estava pensando o que poderiam ser sete dentro dos meus sonhos, enquanto entrava no mercado sem perceber o quão vazio ele estava.
Fui direto no balcão e pedi o que era de balcão.
Sete pãezinhos? Sete salsichas?
Enquanto isso, mantinha o sorriso cotidiano que pretende indicar que sou alguém legal: bom dia, obrigada, bom trabalho, opa maravilha.
Mercado vazio, enfim percebi e comemorei, aproveitando para entrar na ala das coisas que nunca compro, como guloseimas importadas e bebidas de duty free. Olhar os rótulos coloridos, os rótulos sóbrios, as embalagens em tons de marrom e caramelo, imagens de amêndoas e cremes de baunilha quase amarelos.
No que estava pensando mesmo?
Puxo um biscoito na promoção, embalagem colorida, sem glúten, sem lactose, sem adição de açúcares, adoçado com fruta e amor.
Implico.
Devolvo.
Sigo pelas alas implicando com o biscoito adoçado com amor.
As barras de chocolate parecem menos idiotas e uma vai para a cestinha.
Eu sei que estava pensando em algo que parecia importante, mas não consigo lembrar.
Um sapato solto no chão, sem dono aparente. Olho em volta, é um sapato adulto, um sapato social masculino.
Fico pensando nos caminhos que esse sapato pode ter percorrido até chegar ali: a unha encravada do advogado incomodou no limite, ele ficou cego de dor e largou o sapato sem pensar, vai chegar em casa contando isso e ninguém acreditará, apenas a filha caçula de 5 anos que desenhará o sapato voando num cenário de montanha verde e árvores; o sapato caiu de uma bolsa de ginástica, o homem tinha saído do trabalho direto para a academia e não viu o buraco descosturado da mochila.
Quando dei por mim, estava já fora do mercado, com a sacola cheia de coisas que não lembrava de ter pego, será que paguei?
A notinha dentro da sacola me alivia: está pago.
Nossa, tudo isso, como as coisas estão caras.
Atravesso a rua pensando que a minha vida não serve de nada.
a forma
a nota
29 Setembro
23, exposição Evandro Teixeira. Chile 1973.
Imagens em
cinzas, preto e branco, borradas, nítidas, cruas. Nas faces dos presos, manchas
foscas e pretas onde deveriam ser olhos de sonho, em algum momento.
Seja pela
idade da foto, seja pelo passado do tempo, as salas abrigam imagens sombrias. Um
fantasma que parecia morto volta a nos assombrar, dando a entender que não dará
descanso a quem se preocupa com a vida.
Foto: Uma das salas da exposição Evandro Teixeira. Chile 1973, no CCBB.
Tanques, fardas, gatilhos, olhos borrados em manchas pretas foscas. Duas libélulas em deboche, como quem alerta para o ar ao redor: tem espaço!#pracegover: Foto de uma das salas do CCBB, com monitores pendurados no teto e pessoas paradas diante deles. Os monitores exibem as fotos em preto e branco do fotógrafo Evandro Teixeira.
Foto: https://almalondrina.com.br/libelulas-sobre-baionetas-o-olhar-impetuoso-de-evandro-teixeira/
#pracegover: Foto de Evandro Teixeira: Ao ar livre, durante o dia, metades superiores de três baionetas, lado a lado. Em duas delas, duas libélulas pousam, uma em cada uma de suas pontinhas. Ao fundo, copas de árvores e uma cidade desfocada.
Mas com a morte, essa assustadora máquina do tempo não tem o menor cuidado e congela a dor de um veneno de mundo da despedida do que nunca deveria ser proibido ou aniquilado.
Foto: Marca da bomba de gás lacrimogêneo, ou artefato de
protesto, avenida Rio Branco, Rio de Janeiro, RJ, 21.06.1968
#pracegover: Foto da foto na exposição do CCBB. Visto de cima, homem de terno caminha em rua de asfalto, entre duas faixas brancas da pista. A poucos passos atrás dele, a luz da explosão se espalha.
Pido silencio.
Foto: Parede do CCBB, poema Pido Silencio, de
Pablo Neruda.
#pracegover: IDO SILENCIO AHORA me dejen tranquilo. Ahora se acostumbren sin mí. Yo voy a cerrar los ojos Y sólo quiero cinco cosas, cinco raices preferidas. Una es el amor sin fin. Lo segundo es ver el otoño. No puedo ser sin que las hojas vuelen y vuelvan a la tierra. Lo tercero es el grave invierno, la lluvia que amé, la caricia del fuego en el frío silvestre. En cuarto lugar el verano redondo como una sandía. La quinta cosa son tus ojos, Matilde mía, bienamada, no quiero dormir sin tus ojos, no quiero ser sin que me mires: yo cambio la primavera por que tú me sigas mirando. Amigos, eso es cuanto quiero. Es casi nada y casi todo. Ahora si quieren se vayan. He vivido tanto que un día tendrán que olvidarme por fuerza, borrándome de la pizarra: mi corazón fue interminable. Pero porque pido silencio no crean que voy a morirme: me pasa todo lo contrario: sucede que voy a vivirme. Sucede que soy y que sigo. No será, pues, sino que adentro de mí crecerán cereales, primero los granos que rompen la tierra para ver la luz, pero la madre tierra es oscura: y dentro de mí soy oscuro: soy como un pozo en cuyas aguas la noche deja sus estrellas y sigue sola por el campo. Se trata de que tanto he vivido que quiero vivir otro tanto. Nunca me sentí tan sonoro, nunca he tenido tantos besos. Ahora, como siempre, es temprano. Vuela la luz con sus abejas. Déjenme solo con el día. Pido permiso para nacer..
Com os olhos cheios de ar, saí da sala, tentando segurá-los entre os lábios apertados de constrangimento por chorar em público.
#pracegover:Foto diurna da cúpula do CCBB do Rio de janeiro tirada de dentro do prédio. Através da cúpula, o céu está azul.
Reencontrei esta hospedagem e farei uma faxina para me alojar.
Buscando hospedagens para exercitar novamente a escrita, me deparei com esse blog calado já há uns anos – desde 2015; escrevo este perfil em 2023. A ideia é gerar uma versão digitada de meus caderninhos riscados.