sexta-feira, 6 de outubro de 2023

A ASSUSTADORA MÁQUINA DO TEMPO

 

29 Setembro 23, exposição Evandro Teixeira. Chile 1973.


Imagens em cinzas, preto e branco, borradas, nítidas, cruas. Nas faces dos presos, manchas foscas e pretas onde deveriam ser olhos de sonho, em algum momento.

Seja pela idade da foto, seja pelo passado do tempo, as salas abrigam imagens sombrias. Um fantasma que parecia morto volta a nos assombrar, dando a entender que não dará descanso a quem se preocupa com a vida.


Foto: Uma das salas da exposição Evandro Teixeira. Chile 1973, no CCBB.

#pracegover: Foto de uma das salas do CCBB, com monitores pendurados no teto e pessoas paradas diante deles. Os monitores exibem as fotos em preto e branco do fotógrafo Evandro Teixeira. 

Tanques, fardas, gatilhos, olhos borrados em manchas pretas foscas. Duas libélulas em deboche, como quem alerta para o ar ao redor: tem espaço!

Foto: https://almalondrina.com.br/libelulas-sobre-baionetas-o-olhar-impetuoso-de-evandro-teixeira/

#pracegover: Foto de Evandro Teixeira: Ao ar livre, durante o dia, metades superiores de três baionetas, lado a lado. Em duas delas, duas libélulas pousam, uma em cada uma de suas pontinhas. Ao fundo, copas de árvores e uma cidade desfocada. 


Mas com a morte, essa assustadora máquina do tempo não tem o menor cuidado e congela a dor de um veneno de mundo da despedida do que nunca deveria ser proibido ou aniquilado.

#pracegover

Foto: Marca da bomba de gás lacrimogêneo, ou artefato de protesto, avenida Rio Branco, Rio de Janeiro, RJ, 21.06.1968

#pracegover: Foto da foto na exposição do CCBB. Visto de cima, homem de terno caminha em rua de asfalto, entre duas faixas brancas da pista. A poucos passos atrás dele, a luz da explosão se espalha.

Pido silencio.


#pracegover

Foto: Parede do CCBB, poema Pido Silencio, de Pablo Neruda.

#pracegover: IDO SILENCIO AHORA me dejen tranquilo. Ahora se acostumbren sin mí.  Yo voy a cerrar los ojos  Y sólo quiero cinco cosas, cinco raices preferidas.  Una es el amor sin fin.  Lo segundo es ver el otoño. No puedo ser sin que las hojas vuelen y vuelvan a la tierra.  Lo tercero es el grave invierno, la lluvia que amé, la caricia del fuego en el frío silvestre.  En cuarto lugar el verano redondo como una sandía.  La quinta cosa son tus ojos, Matilde mía, bienamada, no quiero dormir sin tus ojos, no quiero ser sin que me mires: yo cambio la primavera por que tú me sigas mirando.  Amigos, eso es cuanto quiero. Es casi nada y casi todo.  Ahora si quieren se vayan.  He vivido tanto que un día tendrán que olvidarme por fuerza, borrándome de la pizarra: mi corazón fue interminable.  Pero porque pido silencio no crean que voy a morirme: me pasa todo lo contrario: sucede que voy a vivirme.  Sucede que soy y que sigo.  No será, pues, sino que adentro de mí crecerán cereales, primero los granos que rompen la tierra para ver la luz, pero la madre tierra es oscura: y dentro de mí soy oscuro: soy como un pozo en cuyas aguas la noche deja sus estrellas y sigue sola por el campo.  Se trata de que tanto he vivido que quiero vivir otro tanto.  Nunca me sentí tan sonoro, nunca he tenido tantos besos.  Ahora, como siempre, es temprano. Vuela la luz con sus abejas.  Déjenme solo con el día. Pido permiso para nacer..

Com os olhos cheios de ar, saí da sala, tentando segurá-los entre os lábios apertados de constrangimento por chorar em público.

Foto diurna da cúpula do CCBB do Rio de janeiro tirada de dentro do prédio. Através da cúpula, o céu está azul.

 Foto: CCBB

#pracegover:Foto diurna da cúpula do CCBB do Rio de janeiro tirada de dentro do prédio. Através da cúpula, o céu está azul.

 


 


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