segunda-feira, 30 de outubro de 2023
Memória de ti
sexta-feira, 6 de outubro de 2023
BORBOLETAS, MOSCAS E BESOUROS
Tinha tempo que não me encontrava.
Mas, foi virando a esquina de todo dia que, quase sem querer, me viu. Era um caminho que seguia diariamente e o cotidiano tem o super poder de tornar invisível tudo que o permeia; as pessoas passam a ser como moscas ou borboletas que passam voando dentro do nosso campo de visão e não sabemos se são moscas, borboletas ou besouros, sendo apenas manchas em movimento na paisagem, que também não tem mais forma definida. Mas, ali, quis saber se era mosca, borboleta ou besouro, forçando o foco da visão.
O primeiro elemento identificado foi a fumaça de cigarro que saía de sua boca e sumia em poucos segundos no ar. O lábio que soltava a fumaça rapidamente se fez em sorriso, mostrando que havia reconhecido quem estava diante de si, antes de que esse reconhecimento se tornasse recíproco. Depois do lábio, todo o corpo e toda a pessoa tornaram-se significado e ali poderiam dizer que se esbarravam depois de muito tempo.
“Apenas um cumprimento educado, oi tudo bem?, e saio” – essa era a certeza. Do outro lado, outra tragada. Antes que pudesse terminar sua frase, a mão sem cigarro pegou o braço, puxando seu corpo para uma saudação mais calorosa. Os dois beijinhos, protocolo paradoxal do cotidiano carioca, acarretaram um tremor interno que conhecia bem e sabia que conseguia lidar, sem deixar transparecê-lo a quem estivesse do lado de fora. Ainda assim, porém, preferia não tê-lo sentido. Findados os mais longos dois beijinhos da história, a mão sem cigarro continuava segurando o braço, o sorriso aroma Marlboro estava a pouco mais de um palmo de distância da cabeça e a pergunta “tudo bem” não é mais vazia: uma resposta informativa se desenrolava. Nos ouvidos, o relato sobre uma mudança de apartamento estava a um passo da pergunta “borboleta, mosca ou besouro?”. Apenas consentia com a cabeça, na intenção de que o sorriso forçado desse conta da simpatia exigida pela frugalidade dos encontros casuais nas esquinas de todo dia.
Depois de “E você, como está?” a resposta “Bem, está tudo correndo bem com as coisas todas” não tinha nenhuma conexão com o que passava em pensamentos, mas comunicaria de forma eficaz fosse com moscas ou borboletas, fazendo com que cada mancha retomasse seu prumo de coadjuvante à paisagem alheia. Mas aquele dia não estava parecendo aceitar a imperceptibilidade dos outros dias e veio outra pergunta: “E como estão seus textos?” com os lábios em sorriso, fumaça e articulação de sons, simultaneamente. Não queria falar sobre eles nem sobre si, mas também não queria soar monossilabicamente adolescente.
“Estão indo bem, consegui organizar os antigos e...” o que será que disse mais, enquanto passeava os olhos por sobre acima de suas cabeças, como quem procura a ave que lhe cagou a camiseta. Aquela esquina, há até bem poucos minutos, seria uma esquina de sempre.
“Bom, foi bom te ver, mas eu realmente estou com pressa”. Finalmente conseguia dar fim àquela interação infernal, restando-lhe apenas remoer suas respostas idiotas ao longo do dia. Mas, como ao que tudo indicava, aquele besouro ou mosca (não seria uma borboleta) não estava disposto a desgrudar do braço e, com uma última e profunda baforada, lançou-lhe o tiro de misericórdia: “Agora, estamos mais perto, vamos tomar um chopp, vou ligar para você.”
Dez passos depois, uma olhadela para trás. Assim confirmava que os dois não estavam mais no mesmo cenário – a esquina e seu poder de sumir com carros, pessoas e até montanhas –, e podia cheirar o braço, atestando que, até o momento do encontro, o cigarro estava na mão que o segurou. Da bolsa é sacado o álcool spray, que borrifou umas cinco vezes, esfregando o braço com a outra mão. Novamente, cheirava o braço, enquanto pensava em voz alta: “Era um percevejo”.
Escape
TENTA CABER
No canto
Na folha
No bloco
A expressão que não cabe
QUEBRA
a forma
a nota
A expressão que não cabe
ELA
dá
um
jeito
.
Escape.
A ASSUSTADORA MÁQUINA DO TEMPO
29 Setembro
23, exposição Evandro Teixeira. Chile 1973.
Imagens em
cinzas, preto e branco, borradas, nítidas, cruas. Nas faces dos presos, manchas
foscas e pretas onde deveriam ser olhos de sonho, em algum momento.
Seja pela
idade da foto, seja pelo passado do tempo, as salas abrigam imagens sombrias. Um
fantasma que parecia morto volta a nos assombrar, dando a entender que não dará
descanso a quem se preocupa com a vida.
Foto: Uma das salas da exposição Evandro Teixeira. Chile 1973, no CCBB.
Tanques, fardas, gatilhos, olhos borrados em manchas pretas foscas. Duas libélulas em deboche, como quem alerta para o ar ao redor: tem espaço!#pracegover: Foto de uma das salas do CCBB, com monitores pendurados no teto e pessoas paradas diante deles. Os monitores exibem as fotos em preto e branco do fotógrafo Evandro Teixeira.
Foto: https://almalondrina.com.br/libelulas-sobre-baionetas-o-olhar-impetuoso-de-evandro-teixeira/
#pracegover: Foto de Evandro Teixeira: Ao ar livre, durante o dia, metades superiores de três baionetas, lado a lado. Em duas delas, duas libélulas pousam, uma em cada uma de suas pontinhas. Ao fundo, copas de árvores e uma cidade desfocada.
Mas com a morte, essa assustadora máquina do tempo não tem o menor cuidado e congela a dor de um veneno de mundo da despedida do que nunca deveria ser proibido ou aniquilado.
Foto: Marca da bomba de gás lacrimogêneo, ou artefato de
protesto, avenida Rio Branco, Rio de Janeiro, RJ, 21.06.1968
#pracegover: Foto da foto na exposição do CCBB. Visto de cima, homem de terno caminha em rua de asfalto, entre duas faixas brancas da pista. A poucos passos atrás dele, a luz da explosão se espalha.
Pido silencio.
Foto: Parede do CCBB, poema Pido Silencio, de
Pablo Neruda.
#pracegover: IDO SILENCIO AHORA me dejen tranquilo. Ahora se acostumbren sin mí. Yo voy a cerrar los ojos Y sólo quiero cinco cosas, cinco raices preferidas. Una es el amor sin fin. Lo segundo es ver el otoño. No puedo ser sin que las hojas vuelen y vuelvan a la tierra. Lo tercero es el grave invierno, la lluvia que amé, la caricia del fuego en el frío silvestre. En cuarto lugar el verano redondo como una sandía. La quinta cosa son tus ojos, Matilde mía, bienamada, no quiero dormir sin tus ojos, no quiero ser sin que me mires: yo cambio la primavera por que tú me sigas mirando. Amigos, eso es cuanto quiero. Es casi nada y casi todo. Ahora si quieren se vayan. He vivido tanto que un día tendrán que olvidarme por fuerza, borrándome de la pizarra: mi corazón fue interminable. Pero porque pido silencio no crean que voy a morirme: me pasa todo lo contrario: sucede que voy a vivirme. Sucede que soy y que sigo. No será, pues, sino que adentro de mí crecerán cereales, primero los granos que rompen la tierra para ver la luz, pero la madre tierra es oscura: y dentro de mí soy oscuro: soy como un pozo en cuyas aguas la noche deja sus estrellas y sigue sola por el campo. Se trata de que tanto he vivido que quiero vivir otro tanto. Nunca me sentí tan sonoro, nunca he tenido tantos besos. Ahora, como siempre, es temprano. Vuela la luz con sus abejas. Déjenme solo con el día. Pido permiso para nacer..
Com os olhos cheios de ar, saí da sala, tentando segurá-los entre os lábios apertados de constrangimento por chorar em público.
#pracegover:Foto diurna da cúpula do CCBB do Rio de janeiro tirada de dentro do prédio. Através da cúpula, o céu está azul.
A re-volta dos que nunca saíram do lugar.
Reencontrei esta hospedagem e farei uma faxina para me alojar.
Buscando hospedagens para exercitar novamente a escrita, me deparei com esse blog calado já há uns anos – desde 2015; escrevo este perfil em 2023. A ideia é gerar uma versão digitada de meus caderninhos riscados.quarta-feira, 27 de abril de 2011
Enquanto. Em quanto? E quando?
segunda-feira, 12 de outubro de 2009
ado. a-ado. cada um no seu quadrado.
Com um pé arrastando o calcanhar do outro lado, tirou cada tênis e os dedos suados encolheram-se, experimentando a liberdade depois das 3 horas e meia de viagem. Estava tudo do jeito que deixara. Até o livro na diagonal, posição escolhida intencionalmente, para ter certeza, na chegada, se a casa tivera ou não recebido alguma visita.
Ela não foi; a recusa se fez concreta. A mulher disse não e agora ele estava sem abraço. Sabia que o desejo dela era o de ter ido junto, participado da viagem, mas isso ele não poderia oferecer: esse convívio não cabia no gostar que ele tinha reservado para ela. E cada um gostava sozinho, um do outro, ainda que ao mesmo tempo, juntos. Ele percebia o quanto aquela mulher olhava dentro de seus olhos e pedia com o corpo para que ele a amasse. Ele entendia, mas não podia. Se pudesse, não seria mais ele, pois já seria alguém que sentia amor por ela. E ela, por sua vez, deixaria de ser aquela que tinha, na ausência desse amor, o maior brilho de esperança no olhar. Eles precisavam continuar assim para manter a essência que fazia dessa história o que ela realmente era, com seus limites, auges, intervalos.
Ela precisava fugir de casa pois precisava de colo e temia não bastar o cheiro e as cores das paredes. Temia querer ficar e não sair, temia precisar de mais e sabia que essa necessidade não tardaria em aparecer. Suou as têmporas para negar a oferta e agradecer. Dormir no quarto vazio e ouvir os barulhos de fora sem que o ombro sardento a acolhesse parecia sem sentido e tentador.
Deitada na grama, com os olhos apontando para o céu, tentou contar nos dedos os momentos em que quisera dizer algo para alguém e optou por calar-se. Descobriu que eles somavam mais de vinte, seria mais conveniente contar nas gramas, que eram incontáveis. Suspirou alto. Voltou para casa pedalando sob o sol e encontrou o quarto vazio, também. Desejou que ele estivesse pensando nela e pensou mais forte ainda, como que empurrando os átomos do pensamento para o espaço em que ele estivesse ocupando naquele momento, materializando o sorriso que gostaria de, então, oferecê-lo.
Tomaram banho e dormiram ao mesmo tempo, sem um saber do outro. Estavam muito cansados.





