sexta-feira, 24 de novembro de 2023

Bom dia.

Perdi. 

O despertador toca e eu já perdi.

O corpo estica como quem procura o que já esteve ali: ânimo, vontade, esperança. 

Mais cinco minutos, só mais cinco. Só mais um igual a esse, e mais um. Perdi para o susto do tempo que passou enquanto os blocos de cinco minutos, tomavam o tempo que estava prometido a etapas que agora já não podem mais ser. 

O olho embaçado, não enxerga as letras e os números, os passos apressados e tortos terminam no vaso, o pensamento ilude: “e se hoje for sábado?” (nunca é sábado). 

Perdi para a pasta de dente que cai na pia, perdi para a escova de dente que vai seca à boca, perdi para o tubo da pasta de dente que cai no chão quando volto a ela depois de ver que a pasta caiu na pia. Perdi para a pia, que quando acordei, estava com a torneira aberta (preciso culpar o fantasma, mas as maiores chances são de que eu tenha também perdido para um xixi na madrugada).

O olho enxerga depois da água, depois da gota. 

As telas acesas, o café quente, o queijo derretido, a janela aberta. 

 O dia começa e eu já perdi.

segunda-feira, 6 de novembro de 2023

Halloween

Amanhecer ainda em sonho entre almas mortas e objetos que andam sozinhos. Prender os pés nas tramas do lençol aos berros como se os dedos estivessem amarrados em corda no fundo do mar sem respiro. Abrir os olhos dentro de uma casa nunca antes vista, a própria casa, mas com aspecto inédito. Monstros, carrancas, gárgulas, anjos do mal. Bombas, barulhos, correria de multidão. Os ombros rígidos cansados pelas inúmeras tentativas de despertar. A janela fechada, a porta fechada, o olho sem saber se já abriu. Solta os dentes trincados, a pouca luz acesa, a incompreensão que se desloca do sonho para o dia que o corpo sente começar pelo meio.

segunda-feira, 30 de outubro de 2023

Memória de ti

É como se os elementos nunca estivessem alinhados à organização com que se apresentam diante dos meus olhos. Na cabeça, seu olho está entre os peitos e o umbigo. Sai também um dedo, cinco dedos saem da sua orelha. Uma língua desce por seus ombros e talvez essa língua seja minha, que se intrometeu justo onde estou tentando lembrar. As pontas das unhas guardam pouco espaço com a pele e escurecem ao chegar em seu final. São dedos das mãos e dos pés firmes no tornozelo, ou no chão do banheiro. O seu tronco anda sozinho quando chega flutuando pela areia da praia e mostra os ombros, enquanto escondeu a língua em outro lugar. Talvez você seja um monstro disforme e sejam os meus olhos a me enganar, a forjar uma organização que nunca havia existido, até a minha pupila cismar com este trote de quinta categoria. Na cabeça, seu olho também salta dos mamilos, os seus mesmo. Os meus, quando os fecho fazendo escuro, são aqueles olhos, os dos seus mamilos, que abrem e fazem enxergar a bagunça que é a memória de ti. (03/22)

sexta-feira, 6 de outubro de 2023

BORBOLETAS, MOSCAS E BESOUROS


Tinha tempo que não me encontrava.

Mas, foi virando a esquina de todo dia que, quase sem querer, me viu. Era um caminho que seguia diariamente e o cotidiano tem o super poder de tornar invisível tudo que o permeia; as pessoas passam a ser como moscas ou borboletas que passam voando dentro do nosso campo de visão e não sabemos se são moscas, borboletas ou besouros, sendo apenas manchas em movimento na paisagem, que também não tem mais forma definida. Mas, ali, quis saber se era mosca, borboleta ou besouro, forçando o foco da visão.

O primeiro elemento identificado foi a fumaça de cigarro que saía de sua boca e sumia em poucos segundos no ar. O lábio que soltava a fumaça rapidamente se fez em sorriso, mostrando que havia reconhecido quem estava diante de si, antes de que esse reconhecimento se tornasse recíproco. Depois do lábio, todo o corpo e toda a pessoa tornaram-se significado e ali poderiam dizer que se esbarravam depois de muito tempo.

“Apenas um cumprimento educado, oi tudo bem?, e saio” – essa era a certeza. Do outro lado, outra tragada. Antes que pudesse terminar sua frase, a mão sem cigarro pegou o braço, puxando seu corpo para uma saudação mais calorosa. Os dois beijinhos, protocolo paradoxal do cotidiano carioca, acarretaram um tremor interno que conhecia bem e sabia que conseguia lidar, sem deixar transparecê-lo a quem estivesse do lado de fora. Ainda assim, porém, preferia não tê-lo sentido. Findados os mais longos dois beijinhos da história, a mão sem cigarro continuava segurando o braço, o sorriso aroma Marlboro estava a pouco mais de um palmo de distância da cabeça e a pergunta “tudo bem” não é mais vazia: uma resposta informativa se desenrolava. Nos ouvidos, o relato sobre uma mudança de apartamento estava a um passo da pergunta “borboleta, mosca ou besouro?”. Apenas consentia com a cabeça, na intenção de que o sorriso forçado desse conta da simpatia exigida pela frugalidade dos encontros casuais nas esquinas de todo dia.

Depois de “E você, como está?” a resposta “Bem, está tudo correndo bem com as coisas todas” não tinha nenhuma conexão com o que passava em pensamentos, mas comunicaria de forma eficaz fosse com moscas ou borboletas, fazendo com que cada mancha retomasse seu prumo de coadjuvante à paisagem alheia. Mas aquele dia não estava parecendo aceitar a imperceptibilidade dos outros dias e veio outra pergunta: “E como estão seus textos?” com os lábios em sorriso, fumaça e articulação de sons, simultaneamente. Não queria falar sobre eles nem sobre si, mas também não queria soar monossilabicamente adolescente.

“Estão indo bem, consegui organizar os antigos e...” o que será que disse mais, enquanto passeava os olhos por sobre acima de suas cabeças, como quem procura a ave que lhe cagou a camiseta. Aquela esquina, há até bem poucos minutos, seria uma esquina de sempre.

“Bom, foi bom te ver, mas eu realmente estou com pressa”. Finalmente conseguia dar fim àquela interação infernal, restando-lhe apenas remoer suas respostas idiotas ao longo do dia. Mas, como ao que tudo indicava, aquele besouro ou mosca (não seria uma borboleta) não estava disposto a desgrudar do braço e, com uma última e profunda baforada, lançou-lhe o tiro de misericórdia: “Agora, estamos mais perto, vamos tomar um chopp, vou ligar para você.”

Dez passos depois, uma olhadela para trás. Assim confirmava que os dois não estavam mais no mesmo cenário – a esquina e seu poder de sumir com carros, pessoas e até montanhas –, e podia cheirar o braço, atestando que, até o momento do encontro, o cigarro estava na mão que o segurou. Da bolsa é sacado o álcool spray, que borrifou umas cinco vezes, esfregando o braço com a outra mão. Novamente, cheirava o braço, enquanto pensava em voz alta: “Era um percevejo”.

Escape

A expressão que não cabe


TENTA CABER

No canto

Na folha

No bloco



A expressão que não cabe

QUEBRA


a forma
a nota
o traço




A expressão que não cabe

ELA



um

jeito

.

Escape.

A ASSUSTADORA MÁQUINA DO TEMPO

 

29 Setembro 23, exposição Evandro Teixeira. Chile 1973.


Imagens em cinzas, preto e branco, borradas, nítidas, cruas. Nas faces dos presos, manchas foscas e pretas onde deveriam ser olhos de sonho, em algum momento.

Seja pela idade da foto, seja pelo passado do tempo, as salas abrigam imagens sombrias. Um fantasma que parecia morto volta a nos assombrar, dando a entender que não dará descanso a quem se preocupa com a vida.


Foto: Uma das salas da exposição Evandro Teixeira. Chile 1973, no CCBB.

#pracegover: Foto de uma das salas do CCBB, com monitores pendurados no teto e pessoas paradas diante deles. Os monitores exibem as fotos em preto e branco do fotógrafo Evandro Teixeira. 

Tanques, fardas, gatilhos, olhos borrados em manchas pretas foscas. Duas libélulas em deboche, como quem alerta para o ar ao redor: tem espaço!

Foto: https://almalondrina.com.br/libelulas-sobre-baionetas-o-olhar-impetuoso-de-evandro-teixeira/

#pracegover: Foto de Evandro Teixeira: Ao ar livre, durante o dia, metades superiores de três baionetas, lado a lado. Em duas delas, duas libélulas pousam, uma em cada uma de suas pontinhas. Ao fundo, copas de árvores e uma cidade desfocada. 


Mas com a morte, essa assustadora máquina do tempo não tem o menor cuidado e congela a dor de um veneno de mundo da despedida do que nunca deveria ser proibido ou aniquilado.

#pracegover

Foto: Marca da bomba de gás lacrimogêneo, ou artefato de protesto, avenida Rio Branco, Rio de Janeiro, RJ, 21.06.1968

#pracegover: Foto da foto na exposição do CCBB. Visto de cima, homem de terno caminha em rua de asfalto, entre duas faixas brancas da pista. A poucos passos atrás dele, a luz da explosão se espalha.

Pido silencio.


#pracegover

Foto: Parede do CCBB, poema Pido Silencio, de Pablo Neruda.

#pracegover: IDO SILENCIO AHORA me dejen tranquilo. Ahora se acostumbren sin mí.  Yo voy a cerrar los ojos  Y sólo quiero cinco cosas, cinco raices preferidas.  Una es el amor sin fin.  Lo segundo es ver el otoño. No puedo ser sin que las hojas vuelen y vuelvan a la tierra.  Lo tercero es el grave invierno, la lluvia que amé, la caricia del fuego en el frío silvestre.  En cuarto lugar el verano redondo como una sandía.  La quinta cosa son tus ojos, Matilde mía, bienamada, no quiero dormir sin tus ojos, no quiero ser sin que me mires: yo cambio la primavera por que tú me sigas mirando.  Amigos, eso es cuanto quiero. Es casi nada y casi todo.  Ahora si quieren se vayan.  He vivido tanto que un día tendrán que olvidarme por fuerza, borrándome de la pizarra: mi corazón fue interminable.  Pero porque pido silencio no crean que voy a morirme: me pasa todo lo contrario: sucede que voy a vivirme.  Sucede que soy y que sigo.  No será, pues, sino que adentro de mí crecerán cereales, primero los granos que rompen la tierra para ver la luz, pero la madre tierra es oscura: y dentro de mí soy oscuro: soy como un pozo en cuyas aguas la noche deja sus estrellas y sigue sola por el campo.  Se trata de que tanto he vivido que quiero vivir otro tanto.  Nunca me sentí tan sonoro, nunca he tenido tantos besos.  Ahora, como siempre, es temprano. Vuela la luz con sus abejas.  Déjenme solo con el día. Pido permiso para nacer..

Com os olhos cheios de ar, saí da sala, tentando segurá-los entre os lábios apertados de constrangimento por chorar em público.

Foto diurna da cúpula do CCBB do Rio de janeiro tirada de dentro do prédio. Através da cúpula, o céu está azul.

 Foto: CCBB

#pracegover:Foto diurna da cúpula do CCBB do Rio de janeiro tirada de dentro do prédio. Através da cúpula, o céu está azul.

 


 


A re-volta dos que nunca saíram do lugar.

 Reencontrei esta hospedagem e farei uma faxina para me alojar. 

Buscando hospedagens para exercitar novamente a escrita, me deparei com esse blog calado já há uns anos – desde 2015; escrevo este perfil em 2023. A ideia é gerar uma versão digitada de meus caderninhos riscados. 

 "Sintam-se em casa, mas lembrem-se de que não estão" (Autor desconhecido)