Tinha que entregar o projeto final até as 16:00 de amanhã. Mas não conseguia se concentrar e ainda faltavam algumas muitas páginas. E porra, por que tudo isso? Aquele esforço seco, parto entupido, palavra que não vinha. Carmem não conseguia se concentrar. Copão de guaraná ao lado, palitinho preso no olho. Pensava na vontade de trabalhar de bermuda, de correr na praia às nove da manhã e ir ao cinema no horário dos velhinhos. Passava a língua no espaço entre os dentes e ficava prendendo a ponta da língua por lá. Amanhã ia ficar dolorida, mas já tinha viciado no movimento. O arcondicionado ia direto nas costas da cadeira do computador.
Elaborou, mentalmente, um e-mail para o orientador, pedindo mais um dia. Aí lembrou que ela já estava no mais um dia que já havia sido pedido. E não podia perder a credibilidade, precisava entregar isso, acabar logo com essa masturbação acadêmica e ir para "os finalmentes", cujo significado era completamente desconhecido.
[Água com gelo. O caminho do quarto à cozinha era como um inferno na Terra: calor até não poder mais, bafo quente no corpo, desconforto físico. Desconforto melhor do que aquele que o arcondicionado não ajuda, nem no máximo.]
Pensou que a amiga tinha razão: Chico Buarque acertou em cheio quando chamou Deus de cara gozador e lembrou do Rei de Havana, que cagava pra Deus, não acreditava em porra nenhuma, nem nele próprio.
Carmem estava de saco cheio e parou para se alongar. Lembrou de uns exercícios que a amiga zen tinha ensinado para os momentos de angústia e dor nas costas. Mas doía tudo, até na hora do exercício. Riu sozinha imaginando a cena esdrúxula de uma mulher com pijama florido se esticando e respirando alto, no meio do quarto às três da manhã.
Riu sozinha. Gostou de rir sozinha e riu mais um pouco, só de brincadeira, mas antes preferiu se assegurar de que todos na casa estavam dormindo; não queria correr o risco de alguém abrir a porta e flagrá-la nessa situação. Riu por alguns minutos, rindo do riso, rindo do esdrúxulo, dos pijamas floridos, do texto sem nexo que estava escrevendo. Riu da dor nas costas, pois ela aumentava quando o corpo contraía com as gargalhadas silenciosas e levantou os braços, mexendo meio louca.
Começou a dançar sem música na cabeça, só dançar, considerando que dançar seja se mexer em algum ritmo. Dançou devagar, para não acordar ninguém: nada de movimentos ou pisadas bruscas, deixando que seja lá qual fosse o ritmo inventado, tomasse conta daquele pequeno círculo vazio que seu quarto disponibilizava.
Carmem dançou por dez minutos, rindo. Rindo da dança, do exercício zen, de si mesma. Ficou por alguns minutos exclusivamente em sua companhia. Ficou em si, entrou nela sem perceber. Fez movimentos com a cabeça, girou os pés, exercitou o maxilar, se distraiu, de novo.
Voltou a sentar em frente ao micro com o vento gelado nas costas e se assustou com a hora, mais uma vez.
quinta-feira, 5 de março de 2009
quarta-feira, 4 de março de 2009
Só sei que foi assim.
Outro dia, acordei apaixonada. Foi um sonho cheio de mãos e línguas e barrigas colando uma na outra. Apaixonei-me. Morri de vergonha, pois alguém que faz análise tanto tempo não pode acordar apaixonada porque sonhou gostoso com outra pessoa. Não pode, eu disse pra mim. Não pode, não dá, não é coerente, não é adulto, nem inteligente. Mas foi. Foi grande, foi forte, foi querer pegar avião e tudo, foi mandar torpedo, foi ficar triste com as notícias de volta, foi pensar o dia todo, foi querer agora, ontem, amanhã, pedir a mão, oferecer tudo. Foi suspirar alto, sorrir com o bip do celular. Acordei assim, ora bolas.
Post infinito
Tem um tempo que a gente não conta, não percebe - ou percebe errado, se for possível perceber errado algo que seja para ser percebido -, não mede, e até mesmo - quem sabe!?!? - desconhece.
Falamos de tempo o tempo todo, pedimos tempo, reclamamos que o tempo é curto ao mesmo tempo que não entendemos porque ele não passa logo, quando "logo" é tempo.
Somos capazes até de perder o tempo ou perder tempo.
Não dá tempo de fazer nada: ler aquele livro, ouvir aquele cd, ir até aquele lugar bacana que não sei quem mencionou.
O tempo tá ruim, o tempo tá bom, tempo é dinheiro.
E tem o tempo do pensamento.
Aqueles insights que não sabemos como tivemos tantas idéias em apenas um segundo, o tempo do sonho, que, apesar de termos dormido 8 horas seguidas, dizemos: sonhei que bati com o carro e o carro virava uma azeitona. (Oito horas só pra isso?)
Tem aquele tempo do termômetro do "A Montanha Mágica", quando os sete minutos do termômetro nas axilas parecem mais rápidos do que os sete minutos do dia anterior, do mesmo termômetro, na mesma axila.
O tempo do Johnny Carter, do "O Perseguidor", de quando se está no metrô e a quantidade de coisas pensadas no deslocamento de duas estações - deslocamento esse que dura 3 minutos - demorariam não menos de uma hora para serem verbalizados.
Cada coisa no seu tempo talvez seja uma das frases mais irritantes em certos momentos - só perde para o 'vai passar, você vai ver...' e para o 'não fica assim não'. Porque acontece que esse tempo é grande. O tempo da cabeça não é o do relógio e o do relógio não é o que a gente vive que, por sua vez, não é o tempo que a gente precisaria, porque, no fim das contas, o tempo nunca é suficiente.
Às vezes eu acho que o tempo não existe, mas é indiscutível que ele passa.
Isso é fato: o tempo passa voando, passa raspando, passa e destrói, passa e melhora, passa e defuma, passa e apodrece, passa e deixa nascer, e passa, apenas.
Passa que a gente nem vê, nem sente, e aí o tempo vira passado.
O tempo futuro é o que a gente não sabe o que vem trazendo, mas tá lá - tá lá um coquinho! Ele ainda não é, a não ser que seja em um outro 'mundo' e a gente caminha até ele - e vem, nem que seja para passar, apenas.
Tem o tempo presente que, nunca é, pois o é já deixará de ter sido um segundo depois e tudo dependendo do referencial: a primeira linha deste post é - se pensarmos no post dentro do blog - e foi - se pensarmos apenas no post e que eu já estou pra lá da vigésima linha, no bloco de notas.
Meu tempo tá acabando ou começando? Ou está no meio? Tem meio no tempo? Meio-tempo? É perda de tempo?
(...)
::Para ler::
O Perseguidor, conto de Julio Cortazar
Falamos de tempo o tempo todo, pedimos tempo, reclamamos que o tempo é curto ao mesmo tempo que não entendemos porque ele não passa logo, quando "logo" é tempo.
Somos capazes até de perder o tempo ou perder tempo.
Não dá tempo de fazer nada: ler aquele livro, ouvir aquele cd, ir até aquele lugar bacana que não sei quem mencionou.
O tempo tá ruim, o tempo tá bom, tempo é dinheiro.
E tem o tempo do pensamento.
Aqueles insights que não sabemos como tivemos tantas idéias em apenas um segundo, o tempo do sonho, que, apesar de termos dormido 8 horas seguidas, dizemos: sonhei que bati com o carro e o carro virava uma azeitona. (Oito horas só pra isso?)
Tem aquele tempo do termômetro do "A Montanha Mágica", quando os sete minutos do termômetro nas axilas parecem mais rápidos do que os sete minutos do dia anterior, do mesmo termômetro, na mesma axila.
O tempo do Johnny Carter, do "O Perseguidor", de quando se está no metrô e a quantidade de coisas pensadas no deslocamento de duas estações - deslocamento esse que dura 3 minutos - demorariam não menos de uma hora para serem verbalizados.
Cada coisa no seu tempo talvez seja uma das frases mais irritantes em certos momentos - só perde para o 'vai passar, você vai ver...' e para o 'não fica assim não'. Porque acontece que esse tempo é grande. O tempo da cabeça não é o do relógio e o do relógio não é o que a gente vive que, por sua vez, não é o tempo que a gente precisaria, porque, no fim das contas, o tempo nunca é suficiente.
Às vezes eu acho que o tempo não existe, mas é indiscutível que ele passa.
Isso é fato: o tempo passa voando, passa raspando, passa e destrói, passa e melhora, passa e defuma, passa e apodrece, passa e deixa nascer, e passa, apenas.
Passa que a gente nem vê, nem sente, e aí o tempo vira passado.
O tempo futuro é o que a gente não sabe o que vem trazendo, mas tá lá - tá lá um coquinho! Ele ainda não é, a não ser que seja em um outro 'mundo' e a gente caminha até ele - e vem, nem que seja para passar, apenas.
Tem o tempo presente que, nunca é, pois o é já deixará de ter sido um segundo depois e tudo dependendo do referencial: a primeira linha deste post é - se pensarmos no post dentro do blog - e foi - se pensarmos apenas no post e que eu já estou pra lá da vigésima linha, no bloco de notas.
Meu tempo tá acabando ou começando? Ou está no meio? Tem meio no tempo? Meio-tempo? É perda de tempo?
(...)
::Para ler::
O Perseguidor, conto de Julio Cortazar
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009
lé com cré
no caminho do dentista
subiu um rabugento
no ônibus do metrô.
diz desaforos ao motorista mudo,
que sorri sem graça para o vovô.
O caminho é curto,
o sono é grande
e o ônibus, cheio.
Na falta do que fazer,
estico o olho para o jornal alheio.
subiu um rabugento
no ônibus do metrô.
diz desaforos ao motorista mudo,
que sorri sem graça para o vovô.
O caminho é curto,
o sono é grande
e o ônibus, cheio.
Na falta do que fazer,
estico o olho para o jornal alheio.
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009
terça-feira, 3 de fevereiro de 2009
volvendo
estavam cachos e conchas e barulho de mar. o céu já era preto e o coração a mil. eram férias com gosto de volta às aulas da infância. o "não saber pra onde se vai" coroava o passeio e a mão tocava dizendo o sim que a voz deixou a desejar.
e depois, sob a luz laranja, e depois o espaço nulo entre um e outro e depois o sorriso.
e depois, e depois...
...o sorriso persevera.
Luz dos olhos _ Cassia Eller
e depois, sob a luz laranja, e depois o espaço nulo entre um e outro e depois o sorriso.
e depois, e depois...
...o sorriso persevera.
Luz dos olhos _ Cassia Eller
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