De novo e mais uma vez.
Respirou alto em sinal de cansaço e olhou em volta com ar de poucos amigos. Já não queria mais ser tão simpática. Precisava sair dali e nada parecia colaborar com suas necessidades. Resolveu, pela décima quinta vez, naquela semana, que sua vida urgia por mudanças. Pegou sua mochila, se despediu de todos e saiu, deixando o computador ligado, as folhas espalhadas pela mesa, os colegas incrédulos e nitidamente constrangidos.
Não esperou a chefe ir atrás dela, não chamou por nenhuma amiga, não passou antes no banheiro. Chamou o elevador e como ele não chegou em dois segundos, desceu pelas escadas correndo, sentindo, apática, algumas lágrimas que desciam por seu rosto, gelando o caminho por onde passavam. Ao passar pelos seguranças e pela recepcionista que lhe deram, em vão, boa tarde, a moça chegou até a rua. Sentiu o sangue voltando a circular e a respiração funcionando novamente. Precisaria, agora, bancar seu dia de fúria.
Juntou as moedas espalhadas na bolsa e entrou no primeiro ônibus que a levaria para casa. Precisava fazer as malas, pois não era apenas um espaço que combatia com seus desejos.
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quarta-feira, 5 de agosto de 2009
quarta-feira, 24 de junho de 2009
Quando o amor morreu
A imagem era borrada como muitas vezes a imagem de sonhos aparecem para quem está dormindo.
Uma fila de mulheres de preto entrava na capela e abraçava a mãe do defunto, que não parava de chorar. Os filhos choravam compulsivamente, enquanto levavam copos d'água para a mãe. Chegou a vez de Carmem entrar para cumprir com a obrigação de cumprimentar a família.
Ainda não sabia de quem se despediria, até se deparar com seu amor, envolvido por flores e com duas bolotas de algodão enfiadas no nariz. Começou, então, a acariciar o rosto do morto e gritar por seu nome.
Queria que fechassem logo o caixão para que a história encerrasse de vez, junto com o pensamento de que isso não poderia estar acontecendo. Chorava por alguém que não estava mais ali, enquanto que as lágrimas caíam sobre o rosto gelado de quem não estava mais ali.
Até que os funcionários do cemitério avisaram que o caixão seria fechado. Um lado de Carmem pensava que agora aquela história seria concluída e que, quando chegasse em casa, não teria mais o que esperar dele. O outro lado, o que estava mandando nela ali, naquele agora, entrou em desespero, como se o fato de o homem que amava ser enterrado mudaria a realidade que estava vivendo.
Ele já tinha morrido e a única coisa a ser feita era mandar aquele corpo oco de gente para onde vão os corpos nessa situação.
A morte já tinha chegado ali, e com ela, o luto, a saudade, o amanhã vazio que por sua vez, precedia um depoisdeamanhã um pouco menos pior.
Carmem acordou assustada, suada, triste. Merda foi a primeira palavra que pensou e o rosto que apareceu em sua cabeça, antes mesmo de abrir os olhos, foi o do falecido amor.
Tentou apagar aquela imagem, repetindo para si própria que merecia viver, com o famoso "apesar de". Ele não voltaria, estava morto. Essa história não merecia reticências, mas um ponto final.
Respirou fundo, comeu o seu mamão e foi a caminho do dia.
Uma fila de mulheres de preto entrava na capela e abraçava a mãe do defunto, que não parava de chorar. Os filhos choravam compulsivamente, enquanto levavam copos d'água para a mãe. Chegou a vez de Carmem entrar para cumprir com a obrigação de cumprimentar a família.
Ainda não sabia de quem se despediria, até se deparar com seu amor, envolvido por flores e com duas bolotas de algodão enfiadas no nariz. Começou, então, a acariciar o rosto do morto e gritar por seu nome.
Queria que fechassem logo o caixão para que a história encerrasse de vez, junto com o pensamento de que isso não poderia estar acontecendo. Chorava por alguém que não estava mais ali, enquanto que as lágrimas caíam sobre o rosto gelado de quem não estava mais ali.
Até que os funcionários do cemitério avisaram que o caixão seria fechado. Um lado de Carmem pensava que agora aquela história seria concluída e que, quando chegasse em casa, não teria mais o que esperar dele. O outro lado, o que estava mandando nela ali, naquele agora, entrou em desespero, como se o fato de o homem que amava ser enterrado mudaria a realidade que estava vivendo.
Ele já tinha morrido e a única coisa a ser feita era mandar aquele corpo oco de gente para onde vão os corpos nessa situação.
A morte já tinha chegado ali, e com ela, o luto, a saudade, o amanhã vazio que por sua vez, precedia um depoisdeamanhã um pouco menos pior.
Carmem acordou assustada, suada, triste. Merda foi a primeira palavra que pensou e o rosto que apareceu em sua cabeça, antes mesmo de abrir os olhos, foi o do falecido amor.
Tentou apagar aquela imagem, repetindo para si própria que merecia viver, com o famoso "apesar de". Ele não voltaria, estava morto. Essa história não merecia reticências, mas um ponto final.
Respirou fundo, comeu o seu mamão e foi a caminho do dia.
quarta-feira, 17 de junho de 2009
Matinais
Abriu os olhos e ele ainda dormia. Pensou no quanto queria estar ali dentro, dos olhos que ainda estavam fechados. Pensou no quanto o amava, tentando lembrar quando percebeu isso. Enquanto a língua passava pelos dentes que já não estavam mais separados, lembrou. Lembrou do dia em que pensou 'eu amo você', quase se rendendo ao impulso de deixar que isso virasse uma frase falada. (Tinha pensado de novo na noite passada, enquanto estavam os dois nus, se beijando e se apertando com força.) Pensou no quanto estava feliz ali, naquele agora que estava com os minutos contados. Levantou-se e foi para o banho, participar um pouco mais da casa do homem que amava. Ladrilhos, portas, janelas e todas as possíveis perspectivas do seu amor. Desejava pisar em cada pedaço, reparar cada manchinha da parede. Ali, ele vivia e ali ela estava, convidada pelo dono da casa, do abraço completo, o dono de tudo que ela poderia vir a dar para alguém. Era assim que se sentia: doável. Pensou se alguém recusaria um presente assim.
Desligou o chuveiro, se arrumou e voltou para o lado do amor, de onde nunca gostaria de ter saído.
[O que é o amor _ Maria Rita]
Desligou o chuveiro, se arrumou e voltou para o lado do amor, de onde nunca gostaria de ter saído.
[O que é o amor _ Maria Rita]
segunda-feira, 6 de abril de 2009
Pra não saber.
Ele nunca soube o que a Carmem sentiu quando descobriu que, no fundo da sacola, além do que havia sido combinado de entregar, tinham outras coisas que ela preferia não ter recebido de volta.
Ela também preferiu não contar que, quando começou a seguir o seu caminho, sabia que o celular tocaria. De algum modo, sabia e foi desse modo que pegou o telefone na bolsa para checar e, um segundo depois, na sua mão, o aparelho vibrou. O aperto não passou, mas sim, ela tinha tempo para um café.
Ela também preferiu não contar que, quando começou a seguir o seu caminho, sabia que o celular tocaria. De algum modo, sabia e foi desse modo que pegou o telefone na bolsa para checar e, um segundo depois, na sua mão, o aparelho vibrou. O aperto não passou, mas sim, ela tinha tempo para um café.
quinta-feira, 5 de março de 2009
des tração
Tinha que entregar o projeto final até as 16:00 de amanhã. Mas não conseguia se concentrar e ainda faltavam algumas muitas páginas. E porra, por que tudo isso? Aquele esforço seco, parto entupido, palavra que não vinha. Carmem não conseguia se concentrar. Copão de guaraná ao lado, palitinho preso no olho. Pensava na vontade de trabalhar de bermuda, de correr na praia às nove da manhã e ir ao cinema no horário dos velhinhos. Passava a língua no espaço entre os dentes e ficava prendendo a ponta da língua por lá. Amanhã ia ficar dolorida, mas já tinha viciado no movimento. O arcondicionado ia direto nas costas da cadeira do computador.
Elaborou, mentalmente, um e-mail para o orientador, pedindo mais um dia. Aí lembrou que ela já estava no mais um dia que já havia sido pedido. E não podia perder a credibilidade, precisava entregar isso, acabar logo com essa masturbação acadêmica e ir para "os finalmentes", cujo significado era completamente desconhecido.
[Água com gelo. O caminho do quarto à cozinha era como um inferno na Terra: calor até não poder mais, bafo quente no corpo, desconforto físico. Desconforto melhor do que aquele que o arcondicionado não ajuda, nem no máximo.]
Pensou que a amiga tinha razão: Chico Buarque acertou em cheio quando chamou Deus de cara gozador e lembrou do Rei de Havana, que cagava pra Deus, não acreditava em porra nenhuma, nem nele próprio.
Carmem estava de saco cheio e parou para se alongar. Lembrou de uns exercícios que a amiga zen tinha ensinado para os momentos de angústia e dor nas costas. Mas doía tudo, até na hora do exercício. Riu sozinha imaginando a cena esdrúxula de uma mulher com pijama florido se esticando e respirando alto, no meio do quarto às três da manhã.
Riu sozinha. Gostou de rir sozinha e riu mais um pouco, só de brincadeira, mas antes preferiu se assegurar de que todos na casa estavam dormindo; não queria correr o risco de alguém abrir a porta e flagrá-la nessa situação. Riu por alguns minutos, rindo do riso, rindo do esdrúxulo, dos pijamas floridos, do texto sem nexo que estava escrevendo. Riu da dor nas costas, pois ela aumentava quando o corpo contraía com as gargalhadas silenciosas e levantou os braços, mexendo meio louca.
Começou a dançar sem música na cabeça, só dançar, considerando que dançar seja se mexer em algum ritmo. Dançou devagar, para não acordar ninguém: nada de movimentos ou pisadas bruscas, deixando que seja lá qual fosse o ritmo inventado, tomasse conta daquele pequeno círculo vazio que seu quarto disponibilizava.
Carmem dançou por dez minutos, rindo. Rindo da dança, do exercício zen, de si mesma. Ficou por alguns minutos exclusivamente em sua companhia. Ficou em si, entrou nela sem perceber. Fez movimentos com a cabeça, girou os pés, exercitou o maxilar, se distraiu, de novo.
Voltou a sentar em frente ao micro com o vento gelado nas costas e se assustou com a hora, mais uma vez.
Elaborou, mentalmente, um e-mail para o orientador, pedindo mais um dia. Aí lembrou que ela já estava no mais um dia que já havia sido pedido. E não podia perder a credibilidade, precisava entregar isso, acabar logo com essa masturbação acadêmica e ir para "os finalmentes", cujo significado era completamente desconhecido.
[Água com gelo. O caminho do quarto à cozinha era como um inferno na Terra: calor até não poder mais, bafo quente no corpo, desconforto físico. Desconforto melhor do que aquele que o arcondicionado não ajuda, nem no máximo.]
Pensou que a amiga tinha razão: Chico Buarque acertou em cheio quando chamou Deus de cara gozador e lembrou do Rei de Havana, que cagava pra Deus, não acreditava em porra nenhuma, nem nele próprio.
Carmem estava de saco cheio e parou para se alongar. Lembrou de uns exercícios que a amiga zen tinha ensinado para os momentos de angústia e dor nas costas. Mas doía tudo, até na hora do exercício. Riu sozinha imaginando a cena esdrúxula de uma mulher com pijama florido se esticando e respirando alto, no meio do quarto às três da manhã.
Riu sozinha. Gostou de rir sozinha e riu mais um pouco, só de brincadeira, mas antes preferiu se assegurar de que todos na casa estavam dormindo; não queria correr o risco de alguém abrir a porta e flagrá-la nessa situação. Riu por alguns minutos, rindo do riso, rindo do esdrúxulo, dos pijamas floridos, do texto sem nexo que estava escrevendo. Riu da dor nas costas, pois ela aumentava quando o corpo contraía com as gargalhadas silenciosas e levantou os braços, mexendo meio louca.
Começou a dançar sem música na cabeça, só dançar, considerando que dançar seja se mexer em algum ritmo. Dançou devagar, para não acordar ninguém: nada de movimentos ou pisadas bruscas, deixando que seja lá qual fosse o ritmo inventado, tomasse conta daquele pequeno círculo vazio que seu quarto disponibilizava.
Carmem dançou por dez minutos, rindo. Rindo da dança, do exercício zen, de si mesma. Ficou por alguns minutos exclusivamente em sua companhia. Ficou em si, entrou nela sem perceber. Fez movimentos com a cabeça, girou os pés, exercitou o maxilar, se distraiu, de novo.
Voltou a sentar em frente ao micro com o vento gelado nas costas e se assustou com a hora, mais uma vez.
terça-feira, 28 de outubro de 2008
Fatias
Buscou lá no fundo uma excalamação que tomasse o lugar daquele monte de perguntas que tumultuavam a sua mente. Rasgou algumas cartas antigas que já não diziam mais nada e deu algumas roupas que não lhe serviam.
Mexia os dedos do pé, antes de abrir os olhos e fitar o homem que dormia ao seu lado - ele dobrava a boca num modo único e engraçado. Lindo, também. Abrir os olhos para a vida que, há muito, lhe jogava enigmas dignos da esfinge, parecia uma brincadeira de mal gosto a qual era obrigada a se submeter. Mas precisava se orgulhar disso, também. Olhou para o lado e sorriu lá dentro, com todo o corpo, por estar ali. Só por isso. Tentar dormir novamente seria inútil agora e ela sabia disso. O melhor seria ler seu livro lá fora, se a porta não estivesse trancada.
Lembrou da alegria de sua sobrinha, quando descobriu que é possível comprar uma torta inteira: pode ser sem ser só fatia, mãe??? - Como podem ser tão incríveis para uns, aquilo que esbanja obviedade para outros?
Na sala de jantar, o barulho era constragedor e as mulheres não entendiam o que a anfitriã tentava dizer. Horrores da comunicação, balbuciou seu cunhado, que sempre estava nos eventos sociais, ainda que a contragosto.
Tomou um comprimido enquanto fumava, já na cama, o último cigarro do dia. A cabeça estava explodindo e amanhã estava cheio de céu e chão para ela respirar.
[FLASHBACK]
...primeiro e último dia, roupas todas no chão, tapa na alma para depois guardar como se estivesse tudo arrumado, em ordem...
[FIM DO FLASHBACK]
...primeiro e último dia, roupas todas no chão, tapa na alma para depois guardar como se estivesse tudo arrumado, em ordem...
[FIM DO FLASHBACK]
Mexia os dedos do pé, antes de abrir os olhos e fitar o homem que dormia ao seu lado - ele dobrava a boca num modo único e engraçado. Lindo, também. Abrir os olhos para a vida que, há muito, lhe jogava enigmas dignos da esfinge, parecia uma brincadeira de mal gosto a qual era obrigada a se submeter. Mas precisava se orgulhar disso, também. Olhou para o lado e sorriu lá dentro, com todo o corpo, por estar ali. Só por isso. Tentar dormir novamente seria inútil agora e ela sabia disso. O melhor seria ler seu livro lá fora, se a porta não estivesse trancada.
[FLASHBACK]
No karaokê do restaurante furreca da Buenos Aires, o home de roupa social expulsava suas inquietações cantando Elvis, em alto e bom som.
[FIM DO FLASHBACK]
No karaokê do restaurante furreca da Buenos Aires, o home de roupa social expulsava suas inquietações cantando Elvis, em alto e bom som.
[FIM DO FLASHBACK]
Lembrou da alegria de sua sobrinha, quando descobriu que é possível comprar uma torta inteira: pode ser sem ser só fatia, mãe??? - Como podem ser tão incríveis para uns, aquilo que esbanja obviedade para outros?
Na sala de jantar, o barulho era constragedor e as mulheres não entendiam o que a anfitriã tentava dizer. Horrores da comunicação, balbuciou seu cunhado, que sempre estava nos eventos sociais, ainda que a contragosto.
Tomou um comprimido enquanto fumava, já na cama, o último cigarro do dia. A cabeça estava explodindo e amanhã estava cheio de céu e chão para ela respirar.
quinta-feira, 1 de novembro de 2007
CARMEM
Hoje não era um dia especial. Simplesmente mais um dia na vida de Carmem, que acordava de mau humor para ir trabalhar, quando na verdade queria ler na praia e caminhar no calçadão.
Mas era preciso sair para o trabalho.
Sentou no sofá e ao dar a primeira mordida em sua ameixa, constatou que tinha algo de diferente naquele mesmo dia que estava começando. Nossa, estou com tempo para tomar café... O relógio, porém, jogava-lhe um balde de água fria mostrando que dali a 20 minutos ela precisava já estar sentada em sua cadeira completando aquelas planilhas cujos significados nem ela saberia responder.
Não escovou os dentes depois da ameixa, o que já proporcionava um ótimo passatempo para o curto trajeto diário: tentar, empurrando com a língua, tirar os fiapos da casca que prendiam entre aquele dente que tinha um espacinho. (Fizera um tratamento de canal e sempre precisava recorrer a palitos de dente para limpá-lo, quando estava sozinha em casa).
Talvez fosse esse o maior talento de Carmem: a distração. Pena que fosse isso um defeito nos tempos de hoje. Aliás, esse sempre era o seu pensamento ; teria nascido errada, de alguma maneira, só não sabia qual era.
Enquanto tentava descobrir, ia levando a vida, entupindo-se de remédios, que, a cada cura, traziam uma nova mazela. O que você tem, Carminha? Estou triste, mas já estou me tratando. Triste? Mas Por que? Aconteceu alguma coisa? Não, nada. De vez em quando isso acontece. E a língua voltava ao dente do canal, mas agora não tinha casca de nada para o tempo passar.
Carmem agora estava no hospital e pode-se dizer que a insônia era óbvia. A mãe não fazia xixi sem que ela empurrasse o cabide do soro e despejasse o conteúdo da comadre na jarra com medidor para que a enfermeira o "desprezasse" quando a marca de um litro era alcançada. Sua mãe precisava dormir e ela estava ali para isso. Hospital. Que merda de lugar. É um cheiro, uma cor pastel – tudo é pêssego ou azul bebê ou amarelinho num hospital – um silêncio. Praticamente uma prisão. Carmem tentou se lembrar de uma visita que fizera num hospital a alguém que estivesse por algum motivo voluntário como um parto ou cirurgia plástica. Impossível. Lembrou da mulher do pai com metade da cabeça raspada por conta de uma inserção de dois grampos no cérebro que a obrigavam a apresentar um atestado sempre que fosse viajar de avião. Já havia se distraído vendo pela terceira vez um filme, uma entrevista na televisão, zerado duas vezes alguns joguinhos de computador e celular. Até o trabalho que levou para casa chegou a distraí-la. E a enfermeira com tererê não chegou à meia noite para a nebulização, como havia prometido.
Carmem não se agüentava mais. Estava chata e desinteressante, acompanhando o ritmo de sua vida. Eram amores desfeitos, confusões, remédios para dormir, tristezas diárias, rotinas bipolares. Carmem precisava ser útil e ficar no hospital com sua mãe só a lembrava de que não tinha muita utilidade, já que quase vomitava ao se deparar com a urina que precisava jogar da comadre na jarra com medidor. É o xixi da sua mãe!, protestou a recém operada. Carmem agora era uma filha com nojo do mijo da própria mãe. E se os pontos inflamarem? E se ela urrar de dor enquanto eu estiver dormindo? Não tomarei a medicação hoje. É melhor que eu não durma. Não correrei esse risco.
Dor de estômago.
Mas era preciso sair para o trabalho.
Sentou no sofá e ao dar a primeira mordida em sua ameixa, constatou que tinha algo de diferente naquele mesmo dia que estava começando. Nossa, estou com tempo para tomar café... O relógio, porém, jogava-lhe um balde de água fria mostrando que dali a 20 minutos ela precisava já estar sentada em sua cadeira completando aquelas planilhas cujos significados nem ela saberia responder.
Não escovou os dentes depois da ameixa, o que já proporcionava um ótimo passatempo para o curto trajeto diário: tentar, empurrando com a língua, tirar os fiapos da casca que prendiam entre aquele dente que tinha um espacinho. (Fizera um tratamento de canal e sempre precisava recorrer a palitos de dente para limpá-lo, quando estava sozinha em casa).
Talvez fosse esse o maior talento de Carmem: a distração. Pena que fosse isso um defeito nos tempos de hoje. Aliás, esse sempre era o seu pensamento ; teria nascido errada, de alguma maneira, só não sabia qual era.
Enquanto tentava descobrir, ia levando a vida, entupindo-se de remédios, que, a cada cura, traziam uma nova mazela. O que você tem, Carminha? Estou triste, mas já estou me tratando. Triste? Mas Por que? Aconteceu alguma coisa? Não, nada. De vez em quando isso acontece. E a língua voltava ao dente do canal, mas agora não tinha casca de nada para o tempo passar.
Carmem agora estava no hospital e pode-se dizer que a insônia era óbvia. A mãe não fazia xixi sem que ela empurrasse o cabide do soro e despejasse o conteúdo da comadre na jarra com medidor para que a enfermeira o "desprezasse" quando a marca de um litro era alcançada. Sua mãe precisava dormir e ela estava ali para isso. Hospital. Que merda de lugar. É um cheiro, uma cor pastel – tudo é pêssego ou azul bebê ou amarelinho num hospital – um silêncio. Praticamente uma prisão. Carmem tentou se lembrar de uma visita que fizera num hospital a alguém que estivesse por algum motivo voluntário como um parto ou cirurgia plástica. Impossível. Lembrou da mulher do pai com metade da cabeça raspada por conta de uma inserção de dois grampos no cérebro que a obrigavam a apresentar um atestado sempre que fosse viajar de avião. Já havia se distraído vendo pela terceira vez um filme, uma entrevista na televisão, zerado duas vezes alguns joguinhos de computador e celular. Até o trabalho que levou para casa chegou a distraí-la. E a enfermeira com tererê não chegou à meia noite para a nebulização, como havia prometido.
Carmem não se agüentava mais. Estava chata e desinteressante, acompanhando o ritmo de sua vida. Eram amores desfeitos, confusões, remédios para dormir, tristezas diárias, rotinas bipolares. Carmem precisava ser útil e ficar no hospital com sua mãe só a lembrava de que não tinha muita utilidade, já que quase vomitava ao se deparar com a urina que precisava jogar da comadre na jarra com medidor. É o xixi da sua mãe!, protestou a recém operada. Carmem agora era uma filha com nojo do mijo da própria mãe. E se os pontos inflamarem? E se ela urrar de dor enquanto eu estiver dormindo? Não tomarei a medicação hoje. É melhor que eu não durma. Não correrei esse risco.
Dor de estômago.
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