E hoje o meu Madame Satã entrou no ônibus vendendo suas canetas. Emoldurava os produtos com suas unhas perfeitas e seus dedos todos preenchidos com anéis prateados - alguns com pedras, outros sem. Hoje eu estava sentada na frente, com as estratégicas lentes escuras, próprias para os dias quentes - ou difíceis - e pude receber o seu olhar de volta, reagindo comigo por conta do efeito hipnótico que sua figura costuma me causar.
Ele descreveu cada caneta - de quatro cores, de três cores, caneta-calendário, caneta de metal, marca-texto, marca-cd... - e eu, como sempre, pensava em qual iria comprar - nunca deixo meu Madame Satã descer do ônibus sem levar comigo uma caneta de sua caixa - e ele andou para o fim do ônibus e eu não consegui chamá-lo. Ele continuou com seu texto de vendedor ambulante, eu olhei para trás e ele estava posicionado para descer no próximo ponto. Vou chamá-lo, vou chamá-lo, vou chamá-lo, vou chamá-lo! (essa era eu, tomando mais uma decisão que não iria adiante)
Não chamei, ele desceu do ônibus, agradecendo ao motorista.
Deixei meu Madame Satã ir embora, quando o que eu precisava fazer era bem simples.
Mas nem tudo que é simples é fácil de fazer; eu tenho aprendido isso, das piores maneiras possíveis.
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segunda-feira, 13 de outubro de 2008
segunda-feira, 17 de março de 2008
Meu Madame Satã.
Ele entrou pela porta de saída, assim como fazem todos aqueles permitidos pelos condutores, a vender seus produtos aos passageiros de ônibus. Senhores passageiros, bom dia. Primeiramente, desculpe incomodar o silêncio de sua viagem. – teria um curso de oratória para abordagem de ambulantes de ônibus?
Geralmente são apenas voz. Uma espécie de trilha sonora para quem precisa, diariamente, tripular os coletivos cariocas – e que iria à falência se resolvesse comprar todos os produtos oferecidos de segunda à sexta. Mas isso é outro post.
Tem quem apenas peça, pois perdeu a perna e não consegue emprego. Tem também quem ofereça lápis, caneta, cortador de legumes, barras de cereais, chocolate, bala, chiclete, amendoim... e eles entram sem causar nenhum impacto; ninguém interrompe uma conversa ou tira o fone do ouvido para ouvi-los e balança a cabeça em sinal de atenção. Acho que sou a única.
Eu paro de ler, olho para eles, sorrio, dou bom dia, digo não obrigada ou me vê duas de caramelo.
E foi por isso que eu, na sexta feira fiz questão de comprar duas canetas por um real. Porque eu percebi que o vendedor tinha as mãos finas, limpas e feitas com esmalte perolado, unhas longas e cutiladas enfeitando os dedos que seguravam e apontavam com orgulho as canetas e marca textos, muito mais baratos do que nas lojas americanas e papelarias da cidade. Fui subindo o olhar e aquele cara tinha a sobrancelha mais perfeita do mundo e a pele mais feminina que eu já vi. Todo o cotidiano desse homem veio à minha cabeça e tenho certeza que faz shows em casas decadentes de Copacabana ou da Praça Mauá. Nos dias de casa fechada, o meu Madame Satã ganha a vida noturna nas calçadas da Glória ou do Lavradio. Ele tinha cara de cansado e estava certamente com pressa. Afinal de contas, era sexta-feira: dia seguinte de labuta noturna, além de ser o dia oficial de lucros maiores. A unha já estava feita.
- Quero duas canetas por um real, moço.
- Obrigada, fique com Deus.
- O senhor também.
Meu Madame Satã desceu do ônibus e correu até a frente oferecendo canetas ao cobrador e ao motoristas. Essas últimas, de graça. Entrou no ônibus da frente.
As canetas ainda estão com carga e são perfumadas, mas isso foi o que menos importou na compra.
Adoro inventar vida pras pessoas.
Geralmente são apenas voz. Uma espécie de trilha sonora para quem precisa, diariamente, tripular os coletivos cariocas – e que iria à falência se resolvesse comprar todos os produtos oferecidos de segunda à sexta. Mas isso é outro post.
Tem quem apenas peça, pois perdeu a perna e não consegue emprego. Tem também quem ofereça lápis, caneta, cortador de legumes, barras de cereais, chocolate, bala, chiclete, amendoim... e eles entram sem causar nenhum impacto; ninguém interrompe uma conversa ou tira o fone do ouvido para ouvi-los e balança a cabeça em sinal de atenção. Acho que sou a única.
Eu paro de ler, olho para eles, sorrio, dou bom dia, digo não obrigada ou me vê duas de caramelo.
E foi por isso que eu, na sexta feira fiz questão de comprar duas canetas por um real. Porque eu percebi que o vendedor tinha as mãos finas, limpas e feitas com esmalte perolado, unhas longas e cutiladas enfeitando os dedos que seguravam e apontavam com orgulho as canetas e marca textos, muito mais baratos do que nas lojas americanas e papelarias da cidade. Fui subindo o olhar e aquele cara tinha a sobrancelha mais perfeita do mundo e a pele mais feminina que eu já vi. Todo o cotidiano desse homem veio à minha cabeça e tenho certeza que faz shows em casas decadentes de Copacabana ou da Praça Mauá. Nos dias de casa fechada, o meu Madame Satã ganha a vida noturna nas calçadas da Glória ou do Lavradio. Ele tinha cara de cansado e estava certamente com pressa. Afinal de contas, era sexta-feira: dia seguinte de labuta noturna, além de ser o dia oficial de lucros maiores. A unha já estava feita.
- Quero duas canetas por um real, moço.
- Obrigada, fique com Deus.
- O senhor também.
Meu Madame Satã desceu do ônibus e correu até a frente oferecendo canetas ao cobrador e ao motoristas. Essas últimas, de graça. Entrou no ônibus da frente.
As canetas ainda estão com carga e são perfumadas, mas isso foi o que menos importou na compra.
Adoro inventar vida pras pessoas.
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