Em decorrência da última de uma série de zicas que vêm me perseguindo desde o início deste ano, acabei posando no Hospital São Lucas, com muita dor abdominal, febre e moleza.
É impressionante como a estrutura de saúde com a qual a gente "conta" deixa a desejar. Mas o circo estava armado, independente disso.
Uma mulher loira, lá pelos seus sessenta anos, com uma roupa rosa bebê e um laço de veludo nos cabelos um tanto desgrenhados andava de um lado para o outro até sentar ao meu lado bradava: que frio faz aqui, não é? Detesto isso: com qual objetivo uma pessoa olha para o alto, fala como se estivesse apenas pensando alto e pede uma confirmação final, praticamente forçando o outro - que nunca o viu na vida - a participar de uma conversa que muito possivelmente não lhe é convidativa. Fingi que não ouvi, mas a senhora não parecia ligar para isso e continou dizendo que tinha uma doença não sei das quantas e que agora eles iam ver o motivo, já que se tratava de um mal de fumantes e ela tinha horror a cigarro. Levantei-me da cadeirinha e fui para outra fileira, de frente para a TV.
Ora bolas!
Alguns longos minutos depois, minha senha foi chamada. Na verdade, ela já havia sido chamada antes, mas a indicação do guichê 1 no painel eletrônico me fez pensar que o número chamado era o 1078 e não que o 078 poderia se dirigir ao guichê 1. Expliquei ao moço a confusão e lá fui eu.
Logo na entrada do consultório, a médica começou o freak show - que mal sabia eu, estava apenas começando: Que esmalte lindo, que cor é essa hein? Vou anotar. Desculpa, eu sei que você está doente, mas eu sou viciada em esmalte. Pegou o receituário e anotou: vitral risqué. Depois de dissertar sobre esmaltes, iniciou a consulta e me encaminhou ao laboratório, para receber a medicação e coletar sangue e urina para os exames.
- Pode sentar ali, Carolina.
E não é que o "ali" era ao lado da senhora de rosa-bebê antitabagista com doença de fumante? Bicho, a mulher gritava e chorava quando tiravam o sangue dela, e batia o pé no chão, e gritava meu deus o que é isso! e eu imagino ter caprichado no meu semblante de pavor quando perguntei à médica se eu realmente tinha de sentar ali, pois ela respondeu na hora que sim, eu podia ir para o outro lado.
Daí começou a luta das mocinhas para encontrarem a minha veia para tirar o sangue e deixar o remédio caindo, que acaba me deixando com marcas roxinhas pelo braço, mas com a qual que, de certa forma, já me acostumei. Até que o moço me chamou para fazermos o raio-x e, no que eu levantei, ele abriu a cadeira de rodas para mim. Eu realmente preciso usar essa cadeira de rodas? Ué, você não quer ir de cadeira de rodas? Você pode ir de cadeira de rodas para o raio x. Não, moço, peloamordedeus, prefiro ir andando.
O moço do raio-x pediu que eu tirasse o sutiã para o exame e eu fui para o banheirinho. Tirei o sutiã e deixei dobradinho em cima da caixa do vaso e fui rumo às chapas hightechs que me viraram de um lado para o outro por alguns minutos. Enquanto isso, entraram algumas pessoas do hospital, foram ao banheiro e saíram rapidamente. Numa dessas, um moço embrulhou meu sutiã e ia levando embora, achando que fosse da amiga que tinha acabado de trocar de roupa, mas perguntou se eu tinha deixado alguma coisa no banheiro, quando viu meu olho rabudo para o embrulho branco. Resgatei meu sutiã embrulhado em papel de enxugar mão e voltei para o andar de baixo.
Sentadinha esperando chegar alguém que acertasse a minha veia, vi a mulher-loira-rosabebê-quenãofumamastemdoençadefumante-quegritanoexamedesangue deixando louca a mediquinha viciada em esmalte:
- Dona Fulana, o seu caso não é para internação. A senhora pode tratar isso em casa.
- Até parece que eu vou conseguir me tratar em casa! E eu lá consigo ficar quieta em casa?
- Então a senhora não vai melhorar nunca.
- Essa doença pode matar?
- Olha. Todas as doenças podem matar. Hipertensão também mata. O que não significa que todos os hipertensos morrerão disso.
- Ai meu deus, pode matar? (chorando) Eu sou hipertensa, inclusive, minha pressão deve estar altíssima, você pode ver se está muito alta?
- Gabriel! Por favor, você tira pressão dessa senhora? Pode sentar ali que ele já vai ver para a senhora.
Aimeudeus. O "ali" de novo. O "ali" paralelo a um dedo apontando para a mesma direção de onde estavam as cadeiras do meu ladinho. Lá veio ela.
- Até parece... ficar em casa... poissim. Não vou fazer nada disso. Sabe quando eu vou me tratar? NUNCA! Pelo menos... quem manda lá sou eu. Acho que vou ter que chamar a minha mãe... esse idiota não vem... é, vou ter que chamar a minha mãe.
Eu neeeeeeem olhava a mulher. Queria só prestar atenção em cada palavra para poder escrever sobre isso depois sem ter trabalho de inventar. Até que chegou um mocinho inexpressivo, meio cabelo chitão e xorô, bermudinha, tênis e sentou ao lado dela que continuava dizendo que ia chamar a mãe. Até que ele entrou na onda, iniciando o que seria o auge do freak show que me pegou assim, de surpresa.
- A sua mãe está ali fora? Quer que eu chame?
- A minha mãe? Que nada! Tá bem longe ela, até parece que ela viria aqui comigo, minha mãe é uma peste!
- Você não se dá bem com a sua mãe? Eu também não me dou com a minha... ela não gosta de mim e agora eu ainda estou morando com ela.
- Eu não moro mais com a minha. Ela até paga meu plano de saúde, mas é uma peste. A sua mãe não gosta de você?
- Ela não gosta dos filhos, gosta de todo mundo de fora, menos dos filhos. Só teve filho pra infernizar a vida deles, sabe? Me deixou até com insônia,imagina!
- Ai, igual à minha... mas a minha só não gosta de mim.
(sim, eu estava rindo por dentro, me segurando para não pegar o celular e apertar o rec)
Nisso, a enfermeira chegou e falou com o mocinho:
- Senhor fulano, eu vou aplicar esses dois remédios, mas preste atenção: assim que eu aplicar, o senhor deve sair correndo para a casa, pois são remédios fortes. Corre o risco de o senhor cair aqui dormindo.
- Ai, doutora, não tem problema! Se a senhora conseguir me fazer dormir, já tenho motivos para agradecer a vida toda.
A enfermeira saiu sem responder e a loucaderosabebê-doentedefumantesemserfumante-quechoranoexame-querserinternada-eamãenãogostadela recomeçou, perguntando:
- Por que você não toma lexotan?
- Não me dou bem com lexotan...
- Eu tomo um dienpax de 10 e passo a noite em claro! Você quer que eu te leve em casa de carro?
- Não, muito obrigado, mas eu moro aqui em frente. Mas não me dou bem com esses remédios... nem rivotril.
- Rivotril tira o sono! (aqui entra aquele smile de olhos arregalados e boca reta, para representar a minha reação)
Senhor fulano foi tomar o remédio, senhora fulana não estava com a pressão alta. Os dois foram embora, finalizando o festival de aberrações da noite.
Ah sim. Fui medicada, os exames estavam todos normais, o médico disse que, provavelmente, foi algo que eu comi.
*Eu até sou uma pessoa criativa, mas não precisei inventar N-A-D-A para esse post. Ok, Luciano?
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terça-feira, 28 de abril de 2009
terça-feira, 18 de novembro de 2008
segunda-feira, 20 de outubro de 2008
quinta-feira, 16 de outubro de 2008
Dor alheia.
Fabiana estava cansada. Ontem o dia foi difícil, trabalhar doía e a cada "bom dia" pelos corredores, o desejo era o de matar um a um com sua caneta bic.
Na hora do almoço, o chefe pediu que ela levasse o cliente que visitava a empresa àquele restaurante mais bonitinho, pois ele estaria absorto em uma videconferência em seu escritório. Fabiana sabia que era mentira: o cliente era chato, o restaurante era cheio e caro e o chefe trepava com a estagiária quando todos saíam para almoçar. Olhou para a caneta bic e em seguida, para a jugular do chefe. Melhor não, vai que eu erro..., pensou ela.
O cliente chato nem titubeou na hora da conta e deixou que ela se encarregasse da comanda dele. Fabiana passou o cartão e números vermelhos pulavam em tamanho monstro dentro de sua cabeça. Reembolso, Fabiana? Isso faz parte do seu trabalho, afinal de contas, o seu emprego depende também deste homem, não é?, respondeu o chefe, depois do pedido de reembolso da refeição de 25 reais daquele cliente gordo e mal educado. Ei, seu puto! Sua braguilha está aberta e sua calça está com um pingo, Fabiana disse por dentro. Mas só por dentro.
Ao se servir de cafezinho, o copinho de plástico escorregou de sua mão e o banho de café quente não foi para ela a pior parte do dia.
Jantar da mamãe hoje... tomaria mais dois banhos de cafezinho e levaria mais uma vez o cliente balofo para almoçar para não precisar estar em família hoje.
Fabiana é a filha solteira, feinha, meio desastrada, não muito inteligente e tinha muita acne. Ainda que soubesse de tudo isso, sua mãe insistia em repetir a cada encontro que ela precisava dar um jeito em sua vida.
Saiu do escritório e parou no salão de beleza próximo a sua casa para fazer as unhas e - por que não? - uma escova. Os números vermelhos saltaram em sua cabeça mais uma vez, só que em tamanho um pouco menor. O que é um pum, para quem já está cagada?
Sentada de frente para a manicure ela via como era bonita a mulher que fazia suas unhas. Loira, cabelos enrolados, um olho azul enorme, pele branca... Você é a cara da Nicole Kidman! Quem é Nicole Kidan? É aquela da novela das surfistas? Não, essa é a Carolina Dickman. Ah tá! Ela é linda, brigada. Fabiana achou melhor não explicar. A moça gostou, que bom. Quem sabe ela não deixa de cobrar o extra da francesinha?
Ao remover a cutícula do dedo anelar esquerdo, Nicole Dickman, a manicure, deixou que o alicate escapulisse e, num golpe rápido, mínimo e doloridíssimo, um pedacinho da pele de Fabiana foi embora, deixando uma pontinha de sangue em seu dedo. Desculpa!Sem problemas, acontece, querida. Deixa eu te perguntar: você podia ver se tem alguém livre pra fazer uma escova em mim? Tá, a senhora espera um segundinho só? Espero sim. Já volto, vou lá perguntar. --- Olha, tem não, tá todo mundo ocupado. Puxa... Ok, brigada... eu deveria ter marcado com mais antecedência. É, dia de quinta feira isso aqui fica um sufoco! Tem mulher saindo até pelo ladrão! Mas a senhora tá linda, a senhora tem um rosto muito bonito, não precisa se preocupar com o cabelo.
Aí Fabiana não aguentou. Filha da puta mentirosa, essa manicure. E chorou como nunca. Chorou em silêncio, não respondia o que tinha acontecido, ainda que a manicure perguntasse se tinha sido a dor do bife arrancado, ou a escova que ela não fez. Fabiana só conseguia chorar e seu rosto vermelho e oleoso chamava a atenção de todo o salão, ainda que ela não emitisse nenhum som. Ela tá chorando. Quem? Ela ali, ó, aquela mulher meio "maljambrada". Gente, como chora aquela mulher que tá fazendo unha ali...
Até que o assistente de um dos cabelereiros puxou seu banquinho e sentou ao lado dela, oferecendo um copo d'água. Passou o braço por suas costas e segurou seu ombro com força. Sem perguntar o que tinha acontecido, ele se ofereceu para ajudar e para conversar se ela quisesse. Ela chorou um pouco mais, pois sabia que esse teria sido a melhor parte do seu dia.
Na hora do almoço, o chefe pediu que ela levasse o cliente que visitava a empresa àquele restaurante mais bonitinho, pois ele estaria absorto em uma videconferência em seu escritório. Fabiana sabia que era mentira: o cliente era chato, o restaurante era cheio e caro e o chefe trepava com a estagiária quando todos saíam para almoçar. Olhou para a caneta bic e em seguida, para a jugular do chefe. Melhor não, vai que eu erro..., pensou ela.
O cliente chato nem titubeou na hora da conta e deixou que ela se encarregasse da comanda dele. Fabiana passou o cartão e números vermelhos pulavam em tamanho monstro dentro de sua cabeça. Reembolso, Fabiana? Isso faz parte do seu trabalho, afinal de contas, o seu emprego depende também deste homem, não é?, respondeu o chefe, depois do pedido de reembolso da refeição de 25 reais daquele cliente gordo e mal educado. Ei, seu puto! Sua braguilha está aberta e sua calça está com um pingo, Fabiana disse por dentro. Mas só por dentro.
Ao se servir de cafezinho, o copinho de plástico escorregou de sua mão e o banho de café quente não foi para ela a pior parte do dia.
Jantar da mamãe hoje... tomaria mais dois banhos de cafezinho e levaria mais uma vez o cliente balofo para almoçar para não precisar estar em família hoje.
Fabiana é a filha solteira, feinha, meio desastrada, não muito inteligente e tinha muita acne. Ainda que soubesse de tudo isso, sua mãe insistia em repetir a cada encontro que ela precisava dar um jeito em sua vida.
Saiu do escritório e parou no salão de beleza próximo a sua casa para fazer as unhas e - por que não? - uma escova. Os números vermelhos saltaram em sua cabeça mais uma vez, só que em tamanho um pouco menor. O que é um pum, para quem já está cagada?
Sentada de frente para a manicure ela via como era bonita a mulher que fazia suas unhas. Loira, cabelos enrolados, um olho azul enorme, pele branca... Você é a cara da Nicole Kidman! Quem é Nicole Kidan? É aquela da novela das surfistas? Não, essa é a Carolina Dickman. Ah tá! Ela é linda, brigada. Fabiana achou melhor não explicar. A moça gostou, que bom. Quem sabe ela não deixa de cobrar o extra da francesinha?
Ao remover a cutícula do dedo anelar esquerdo, Nicole Dickman, a manicure, deixou que o alicate escapulisse e, num golpe rápido, mínimo e doloridíssimo, um pedacinho da pele de Fabiana foi embora, deixando uma pontinha de sangue em seu dedo. Desculpa!Sem problemas, acontece, querida. Deixa eu te perguntar: você podia ver se tem alguém livre pra fazer uma escova em mim? Tá, a senhora espera um segundinho só? Espero sim. Já volto, vou lá perguntar. --- Olha, tem não, tá todo mundo ocupado. Puxa... Ok, brigada... eu deveria ter marcado com mais antecedência. É, dia de quinta feira isso aqui fica um sufoco! Tem mulher saindo até pelo ladrão! Mas a senhora tá linda, a senhora tem um rosto muito bonito, não precisa se preocupar com o cabelo.
Aí Fabiana não aguentou. Filha da puta mentirosa, essa manicure. E chorou como nunca. Chorou em silêncio, não respondia o que tinha acontecido, ainda que a manicure perguntasse se tinha sido a dor do bife arrancado, ou a escova que ela não fez. Fabiana só conseguia chorar e seu rosto vermelho e oleoso chamava a atenção de todo o salão, ainda que ela não emitisse nenhum som. Ela tá chorando. Quem? Ela ali, ó, aquela mulher meio "maljambrada". Gente, como chora aquela mulher que tá fazendo unha ali...
Até que o assistente de um dos cabelereiros puxou seu banquinho e sentou ao lado dela, oferecendo um copo d'água. Passou o braço por suas costas e segurou seu ombro com força. Sem perguntar o que tinha acontecido, ele se ofereceu para ajudar e para conversar se ela quisesse. Ela chorou um pouco mais, pois sabia que esse teria sido a melhor parte do seu dia.
sábado, 31 de maio de 2008
Tudo meu!
São muitos os objetos que compramos ao longo da vida.
Eu, então, não seria capaz de listar as coisas que comprei desde o meu primeiro salário lá na escola, quando trabalhava de estagiária e recebia um salário mínimo como auxílio. O salário mínimo na época era 120 reais e ainda assim, eu me sentia feliz por ter o primeiro dinheiro para chamar de meu, mesmo ele sendo assim, tão micro.
Olhando para a peruca agora pendurada no meu monitor – ela agora não está servindo para muita coisa, pois está larga e meu cabelo de véia não pode ser coberto por ela. Ei, alguém quer comprar uma peruca??? – eu penso no quanto de dinheiro já não gastei por aí, de maneira fútil e inconseqüente.
Poderia citar o sombrero de palha que comprei em Parati – chovia horrores; eu desfilei pelas ruas de pedra com aquele troço enorme na cabeça, pagando mico e fazendo quem estava junto de mim pagar também –, a grande bola colorida do posto de gasolina, o conjunto de canetas coloridas que custaram uns 60 reais, o pepino de plástico (foto) que enfeita minha prateleira, a vaquinha molenga para apoiar o braço do mouse, uns devedês sem nexo, uma coleção de infláveis de sinal de trânsito* (uma perereca chamada Cássia, uma coruja, um Scooby-doo, um tomate, um martelo)...
... whatever.
A verdade é que eu teria comprado um carro com tudo isso e se eu transformar minha casa num mercado de pulgas não saberia quem chamar, pois das pessoas que eu conheço, eu seria a única a comprar coisas do tipo.
A verdade, no entanto, é que eu adoro ter cada uma dessas coisas, algumas até extintas, como o sombreiro, que ocupava espaço demais e a bola, que minha mãe esvaziou e até hoje diz que ela não faz idéia de como a bola definhou de um dia para outro (os amigos que entravam na minha casa escreviam na bola e ela era toda rabiscada e colorida).
Cada treco tem uma história e é uma espécie de lembrança de um dia muito legal ou de um dia nada demais, mas com aquela descoberta de "Que fofo esse pepino de brinquedo!" ou um acesso de carência seguido de um consumismo alentador. Eu lembro da roupa que eu vestia quando comprei, quem estava comigo, como foi divertido chegar em casa com o produto...
Carol, por que esse post?
Sei lá, acho que tô ficando velha!
*Nunca comprei nenhum inflável. Meus amigos sabiam que eu gosto e sempre me davam; eu comecei a olhar minhas prateleiras e não conseguir não falar dos infláveis... mesmo que eles tenham sido presentes e esse post, sobre coisas compradas.
Mentira, comprei o tomate numa bebedeira de reveillon.
Eu, então, não seria capaz de listar as coisas que comprei desde o meu primeiro salário lá na escola, quando trabalhava de estagiária e recebia um salário mínimo como auxílio. O salário mínimo na época era 120 reais e ainda assim, eu me sentia feliz por ter o primeiro dinheiro para chamar de meu, mesmo ele sendo assim, tão micro.
Olhando para a peruca agora pendurada no meu monitor – ela agora não está servindo para muita coisa, pois está larga e meu cabelo de véia não pode ser coberto por ela. Ei, alguém quer comprar uma peruca??? – eu penso no quanto de dinheiro já não gastei por aí, de maneira fútil e inconseqüente.
Poderia citar o sombrero de palha que comprei em Parati – chovia horrores; eu desfilei pelas ruas de pedra com aquele troço enorme na cabeça, pagando mico e fazendo quem estava junto de mim pagar também –, a grande bola colorida do posto de gasolina, o conjunto de canetas coloridas que custaram uns 60 reais, o pepino de plástico (foto) que enfeita minha prateleira, a vaquinha molenga para apoiar o braço do mouse, uns devedês sem nexo, uma coleção de infláveis de sinal de trânsito* (uma perereca chamada Cássia, uma coruja, um Scooby-doo, um tomate, um martelo)...
... whatever.
A verdade é que eu teria comprado um carro com tudo isso e se eu transformar minha casa num mercado de pulgas não saberia quem chamar, pois das pessoas que eu conheço, eu seria a única a comprar coisas do tipo.
A verdade, no entanto, é que eu adoro ter cada uma dessas coisas, algumas até extintas, como o sombreiro, que ocupava espaço demais e a bola, que minha mãe esvaziou e até hoje diz que ela não faz idéia de como a bola definhou de um dia para outro (os amigos que entravam na minha casa escreviam na bola e ela era toda rabiscada e colorida).
Cada treco tem uma história e é uma espécie de lembrança de um dia muito legal ou de um dia nada demais, mas com aquela descoberta de "Que fofo esse pepino de brinquedo!" ou um acesso de carência seguido de um consumismo alentador. Eu lembro da roupa que eu vestia quando comprei, quem estava comigo, como foi divertido chegar em casa com o produto...
Carol, por que esse post?
Sei lá, acho que tô ficando velha!
*Nunca comprei nenhum inflável. Meus amigos sabiam que eu gosto e sempre me davam; eu comecei a olhar minhas prateleiras e não conseguir não falar dos infláveis... mesmo que eles tenham sido presentes e esse post, sobre coisas compradas.
Mentira, comprei o tomate numa bebedeira de reveillon.
quarta-feira, 21 de maio de 2008
Claudinha
Claudinha é manicure mas não tirou curso de manicure não. Tirou foi curso de cabelo, mas a inscrição que ela tinha feito era pra sabe o que? Costureira. É. Acredita? A mãe é costureira, a vó era costureira, a tia é costureira. Só que a máquina não chegava, não chegava, e ela não ia perder o dinheiro né? Aí fez o curso de cabelo mesmo, mas olhava as meninas que faziam o curso de unha e foi aprendendo. Tá gostando mais de unha mesmo e nunca nem chegou a trabalhar com cabelo, acredita? Mas se amarra mesmo é em costurar e não faz o curso sábado porque não tem tempo. Sábado o salão não abre e ela atende a domecílio no Catete. É, quando tem folga, ainda atende a domecílio, acredita? Só que o prédio do salão no Centro tá em obra e ela não tem agüentado ficar lá o dia inteiro porque com aquela poeira, ela tá respriando direto, outro dia teve até que sair cedo, acredita? Claudinha é de João Pessoa e não vê as novelas da globo não porque são muito chatas. Ela gosta mesmo é da novela de vampiro da record e da que tem antes dela, que é ótima. Aí acaba dormindo tarde e a mãe dela grita: ô Claudete! Vai ficar aí até tarde? Ela, na verdade, se chama Claudete, mas só a maínha que chama ela assim mesmo, porque pros outros ela é Claudinha mesmo. A Rose, que trabalha no salão, é que chama de Craudia, às vezes. Rose é depiladora, mas dá escova também. Ela, Claudinha, também dá escova, mas não tem tempo, então só faz unha mesmo, mas pinta cabelo a domecílio. Ontem mesmo ela estava tentando ligar para uma cliente avisando que ia se atrasar e pediu que Rose procurasse na agenda dela o telefone. Rose esfolheou a agenda e por pouco não encontra o telefone para ela: a agenda da Claudinha é uma bagunça só, tem cliente marcada pra di meio dia, pra di quatruóra e pra di cincuóra. E a que estava marcada pra di seisóra tinha que chegar di seis e quinze pra dar tempo de fazer meu pé.
segunda-feira, 12 de maio de 2008
Da série 'é melhor ouvir isso que ser surdo'
"Eu falei pra ele: você é a maior relação que eu já tive na vida. Ele disse azar o seu. Pode, isso? O que você acha? É azar o meu? Pode falar... pelo riso, você também acha que é azar meu."
"Olha, essa apresentação foi muito bonita. Eu gosto muito de tango, inclusive entendo muito de tango, pois fui várias vezes à Espanha."
"Ela é ótima. Fala o que quer, quando quer. Daí, se não me interessa, eu viro pra lá e ela continua. Fala tudo sozinha, conclui sozinha e fica às gargalhadas sozinha."
"Olha o tamanho da barriga desse cara. O volante parece até um piercing no umbigo."
"Olha, essa apresentação foi muito bonita. Eu gosto muito de tango, inclusive entendo muito de tango, pois fui várias vezes à Espanha."
"Ela é ótima. Fala o que quer, quando quer. Daí, se não me interessa, eu viro pra lá e ela continua. Fala tudo sozinha, conclui sozinha e fica às gargalhadas sozinha."
"Olha o tamanho da barriga desse cara. O volante parece até um piercing no umbigo."
segunda-feira, 24 de março de 2008
Aí, eu caí.
A Carol é do tipo de pessoa que cai. Minha mãe também é assim.
Essa sábia declaração foi da grande amiga Mumu, que, após alguns anos de convivência comigo pôde me inserir na categoria de pessoas que caem.
Praia das conchas, Cabo Frio. Semana Santa, 2008. A praia das conchas é uma daquelas praias de Cabo Frio que estão cheias de mesas e cadeiras de plástico branco na areia, com um guarda sol no meio de cada mesa. Estávamos eu e o casal Mumu & Guilherme, conversando, tomando a cervejinha merecida entre um mergulho e outro.
Aí eu caí.
Assim mesmo. Sem motivo algum; não passou uma super mariposa para me assustar, eu não estava levantando para ir a algum lugar. Eu só estava sentada. E caí. Com cadeira e tudo. Aliás, isso foi ótimo, não me desvencilhei da cadeira nenhum segundo. De repente, quando eu estava no solo, a cadeira ainda estava em mim e nela eu estava sentada, ainda que deitada na areia. Eu vi o pé do garçon que estava a menos de um palmo do meu nariz. E não quis ver mais nada. Só ouvia a voz do Guilherme falando Levanta, Kerou. e vi a mão da Mumu em minha direção para me ajudar a levantar e me guiando até a água. Eu era meia milanesa.
Comigo é assim. Estava no ônibus, aí eu caí. Fui descer do carro, aí eu caí. Fui levantar do sofá, aí eu caí.
Fui cantar no videokê aí eu caí do palco. Pois é, eu caí do palco só porque o chão acabou e quando as pessoas gritavam meu nome na tentativa de me avisarem, me fizeram acreditar que eu estava sendo ovacionada pelo meu aniversário. Aí eu caí, né; arrebentei a sandália e tudo. Fiquei roxa uns diazinhos, do mesmo jeito que fiquei no meu aniversário um ano antes, quando desci de bunda a escadaria do lugar da festa. O próximo aniversário da Kerol precisa ter uma ambulância na porta!, diz meu sábio amigo Lipe.
Porque eu sou assim. Tava ali, aí eu caí.
Esse tipo de gente que cai, sabe?
Essa sábia declaração foi da grande amiga Mumu, que, após alguns anos de convivência comigo pôde me inserir na categoria de pessoas que caem.
Praia das conchas, Cabo Frio. Semana Santa, 2008. A praia das conchas é uma daquelas praias de Cabo Frio que estão cheias de mesas e cadeiras de plástico branco na areia, com um guarda sol no meio de cada mesa. Estávamos eu e o casal Mumu & Guilherme, conversando, tomando a cervejinha merecida entre um mergulho e outro.
Aí eu caí.
Assim mesmo. Sem motivo algum; não passou uma super mariposa para me assustar, eu não estava levantando para ir a algum lugar. Eu só estava sentada. E caí. Com cadeira e tudo. Aliás, isso foi ótimo, não me desvencilhei da cadeira nenhum segundo. De repente, quando eu estava no solo, a cadeira ainda estava em mim e nela eu estava sentada, ainda que deitada na areia. Eu vi o pé do garçon que estava a menos de um palmo do meu nariz. E não quis ver mais nada. Só ouvia a voz do Guilherme falando Levanta, Kerou. e vi a mão da Mumu em minha direção para me ajudar a levantar e me guiando até a água. Eu era meia milanesa.
Comigo é assim. Estava no ônibus, aí eu caí. Fui descer do carro, aí eu caí. Fui levantar do sofá, aí eu caí.
Fui cantar no videokê aí eu caí do palco. Pois é, eu caí do palco só porque o chão acabou e quando as pessoas gritavam meu nome na tentativa de me avisarem, me fizeram acreditar que eu estava sendo ovacionada pelo meu aniversário. Aí eu caí, né; arrebentei a sandália e tudo. Fiquei roxa uns diazinhos, do mesmo jeito que fiquei no meu aniversário um ano antes, quando desci de bunda a escadaria do lugar da festa. O próximo aniversário da Kerol precisa ter uma ambulância na porta!, diz meu sábio amigo Lipe.
Porque eu sou assim. Tava ali, aí eu caí.
Esse tipo de gente que cai, sabe?
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Eu.,
Gente é algo muito estranho.,
Perfil difícil
segunda-feira, 17 de março de 2008
E se fôssemos apenas bons amigos?
Bons amigos, daqueles que sentam em restaurante, praia ou bar.
Amigos que falam por horas sobre qualquer assunto, falam até a hora passar. Amigos sem nesgas de desejo, sem histórias carregadas de sentimento. Amigos, apenas.
Sem merecimentos, pedidos de desculpa, cartas brancas ou cartões vermelhos. Vizinhos que jogam cartas, que se abraçam sem que haja a barreira do corpo.
E se não houvesse conversas à meia noite e abraços na esquina? E se fôssemos apenas bons amigos?
Daqueles de faculdade, que lembram do passado e riem entre um gole e outro de cerveja ou de chopp. Se às 5 da manhã eu descesse ao seu chamado, não para saciar um vazio momentâneo – para o qual eu fosse a última opção – mas para terminar a noite entre fumaças e risos, e até abraços e ombros de apoio às pernas que se esbarram de bebedeira?
E se fôssemos felizes com a companhia do outro, desde sempre, e se fôssemos um, a companhia agradável do outro?
E se fosse simples assim? Vingaríamos?
E se nos amássemos, assim como bons amigos têm amor um pelo outro?
Vingaríamos, se fôssemos amigos?
Amigos que falam por horas sobre qualquer assunto, falam até a hora passar. Amigos sem nesgas de desejo, sem histórias carregadas de sentimento. Amigos, apenas.
Sem merecimentos, pedidos de desculpa, cartas brancas ou cartões vermelhos. Vizinhos que jogam cartas, que se abraçam sem que haja a barreira do corpo.
E se não houvesse conversas à meia noite e abraços na esquina? E se fôssemos apenas bons amigos?
Daqueles de faculdade, que lembram do passado e riem entre um gole e outro de cerveja ou de chopp. Se às 5 da manhã eu descesse ao seu chamado, não para saciar um vazio momentâneo – para o qual eu fosse a última opção – mas para terminar a noite entre fumaças e risos, e até abraços e ombros de apoio às pernas que se esbarram de bebedeira?
E se fôssemos felizes com a companhia do outro, desde sempre, e se fôssemos um, a companhia agradável do outro?
E se fosse simples assim? Vingaríamos?
E se nos amássemos, assim como bons amigos têm amor um pelo outro?
Vingaríamos, se fôssemos amigos?
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inércia,
nó
Meu Madame Satã.
Ele entrou pela porta de saída, assim como fazem todos aqueles permitidos pelos condutores, a vender seus produtos aos passageiros de ônibus. Senhores passageiros, bom dia. Primeiramente, desculpe incomodar o silêncio de sua viagem. – teria um curso de oratória para abordagem de ambulantes de ônibus?
Geralmente são apenas voz. Uma espécie de trilha sonora para quem precisa, diariamente, tripular os coletivos cariocas – e que iria à falência se resolvesse comprar todos os produtos oferecidos de segunda à sexta. Mas isso é outro post.
Tem quem apenas peça, pois perdeu a perna e não consegue emprego. Tem também quem ofereça lápis, caneta, cortador de legumes, barras de cereais, chocolate, bala, chiclete, amendoim... e eles entram sem causar nenhum impacto; ninguém interrompe uma conversa ou tira o fone do ouvido para ouvi-los e balança a cabeça em sinal de atenção. Acho que sou a única.
Eu paro de ler, olho para eles, sorrio, dou bom dia, digo não obrigada ou me vê duas de caramelo.
E foi por isso que eu, na sexta feira fiz questão de comprar duas canetas por um real. Porque eu percebi que o vendedor tinha as mãos finas, limpas e feitas com esmalte perolado, unhas longas e cutiladas enfeitando os dedos que seguravam e apontavam com orgulho as canetas e marca textos, muito mais baratos do que nas lojas americanas e papelarias da cidade. Fui subindo o olhar e aquele cara tinha a sobrancelha mais perfeita do mundo e a pele mais feminina que eu já vi. Todo o cotidiano desse homem veio à minha cabeça e tenho certeza que faz shows em casas decadentes de Copacabana ou da Praça Mauá. Nos dias de casa fechada, o meu Madame Satã ganha a vida noturna nas calçadas da Glória ou do Lavradio. Ele tinha cara de cansado e estava certamente com pressa. Afinal de contas, era sexta-feira: dia seguinte de labuta noturna, além de ser o dia oficial de lucros maiores. A unha já estava feita.
- Quero duas canetas por um real, moço.
- Obrigada, fique com Deus.
- O senhor também.
Meu Madame Satã desceu do ônibus e correu até a frente oferecendo canetas ao cobrador e ao motoristas. Essas últimas, de graça. Entrou no ônibus da frente.
As canetas ainda estão com carga e são perfumadas, mas isso foi o que menos importou na compra.
Adoro inventar vida pras pessoas.
Geralmente são apenas voz. Uma espécie de trilha sonora para quem precisa, diariamente, tripular os coletivos cariocas – e que iria à falência se resolvesse comprar todos os produtos oferecidos de segunda à sexta. Mas isso é outro post.
Tem quem apenas peça, pois perdeu a perna e não consegue emprego. Tem também quem ofereça lápis, caneta, cortador de legumes, barras de cereais, chocolate, bala, chiclete, amendoim... e eles entram sem causar nenhum impacto; ninguém interrompe uma conversa ou tira o fone do ouvido para ouvi-los e balança a cabeça em sinal de atenção. Acho que sou a única.
Eu paro de ler, olho para eles, sorrio, dou bom dia, digo não obrigada ou me vê duas de caramelo.
E foi por isso que eu, na sexta feira fiz questão de comprar duas canetas por um real. Porque eu percebi que o vendedor tinha as mãos finas, limpas e feitas com esmalte perolado, unhas longas e cutiladas enfeitando os dedos que seguravam e apontavam com orgulho as canetas e marca textos, muito mais baratos do que nas lojas americanas e papelarias da cidade. Fui subindo o olhar e aquele cara tinha a sobrancelha mais perfeita do mundo e a pele mais feminina que eu já vi. Todo o cotidiano desse homem veio à minha cabeça e tenho certeza que faz shows em casas decadentes de Copacabana ou da Praça Mauá. Nos dias de casa fechada, o meu Madame Satã ganha a vida noturna nas calçadas da Glória ou do Lavradio. Ele tinha cara de cansado e estava certamente com pressa. Afinal de contas, era sexta-feira: dia seguinte de labuta noturna, além de ser o dia oficial de lucros maiores. A unha já estava feita.
- Quero duas canetas por um real, moço.
- Obrigada, fique com Deus.
- O senhor também.
Meu Madame Satã desceu do ônibus e correu até a frente oferecendo canetas ao cobrador e ao motoristas. Essas últimas, de graça. Entrou no ônibus da frente.
As canetas ainda estão com carga e são perfumadas, mas isso foi o que menos importou na compra.
Adoro inventar vida pras pessoas.
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Gente é algo muito estranho.,
Meu Madame Satã
sábado, 10 de novembro de 2007
Gente é algo muito estranho.
Entrei no 438 e, como de costume, fui correndo sentar na janela da ala direita. Duas meninas conversavam no banco atrás de mim.
- Nossa, olha ele!
- Não disse? Ele tá sempre nesse ponto, mas por que ele não vai entrar no ônibus?
- Vem gatinho, vem... entra aqui, tá na hora de você ir pra casa.
- Lá pra casa, né!
(Gargalhadas)
O ônibus arrancou, rumo ao mergulhão. E parece que as duas mudaram de assunto - ou apenas retomavam a conversa interrompida pela aparição do rapaz que estava no mesmo ponto que eu.
- Olha, amiga. Você sabe que eu considero todos da sua casa como minha família. A sua mãe pra mim é minha tia. Você pra mim é minha prima. Não digo irmã, porque aí eu acho exagero. Mas são da minha família. Mesmo.
- É, eu também.
- Mas eu preciso te falar. Adoro a tia Arlete, sua mãe é uma fofa, já disse, é uma tia pra mim. Mas a sua mãe é uma fraca. Ela é uma fraca e te dá muitos maus exemplos nesse sentido.
(Fez silêncio no ônibus e eu desisti de fingir que estava lendo o livro que segurava. Precisava ver onde isso ia parar.)
- Você diz emocionalmente, né?
- É, emocionalmente!
- É, isso ela é sim.
- Por exemplo, ela ainda não digeriu a morte do Sérgio! O Sérgio morreu em 2000 e a gente tá em 2007!
- Ah, mas ela tá bem melhor agora.
- Não tá não. Ainda guarda todos os cds do Renato Russo porque ele gostava e não pode ouví-los para não chorar. Cara, morreu, acabou! Não pode. A sua mãe não levanta e você é igualzinha!
- Ah, também não é assim, foi foda a morte do Sérgio...
- Mas já foi. Ela não morreu, ela tá viva. E eu sei que você vai ficar assim quando alguém da sua família morrer.
- Isola!
- Olhaí! Tá vendo? Já sei que quando me falarem: a tia Arlete morreu eu vou falar: já providenciaram o enterro da Gabriela? Porque você vai se suicidar!Ai, eu já sei que vou ter que te esbofetear tanto quando a sua mãe morrer...
- Por que?
- Porque você vai dar escândalo, vai ficar gritando "Por que! Por que!" "Ela não podia ter morrido!"
(Gente, eu preciso ver a cara dessas pessoas. Mexo no cabelo tentando dar uma viradinha de leve e tentar avistar os semblantes, mas não rola.)
- Hahaha.
- É mesmo! Olha, graças a Deus que a minha mãe me criou pra vida, e não pra ela. Sempre pude ir a todos os lugares que quis. Ela sempre me deixou cair sozinha. Sempre esteve por perto para me ajudar a levantar. Mas antes falava: tenta sozinha, filha. Levanta sozinha. Agora, quando eu vi aquele piti que você e a tia Arlete fizeram por causa de uma espinha de peixe, eu não acreditei!!! Você quase chorou!!!
- Ah, mas foi foda aquela espinha!
- Olhaí! Tá vendo? A sua referência é a sua mãe que é uma fraca, você não pode ser igual a ela, Gabriela! Eu tenho até medo de que o seu pai ache que eu sou uma enxerida.
- Que nada, minha família toda te adora.
- Eu não saio mais da sua casa!!!
- Imagina. Sabe porque eles não acham? Senão minha mãe já tinha me falado alguma coisa.
- Eu tenho vergonha é do Alan. Outro dia ele atendeu o telefone e eu nem falei com ele, só perguntei a Gabriela está? Ele até brincou comigo, mas cara, que engraçado, morro de vergonha do Alan.
- Você é a amiga que meus pais mais gostaram até hoje.
- Gente, que vergonha do Alan!
(eu cá comigo: a amiga louca tá doida pra dar pro Alan)
- Minha mãe sempre fica tranqüila quando eu digo que vou sair com você.
- É por que ela já viu. Já viu que eu tenho ju-í-zo!
- Mas eu acho que a sua mãe também gosta de mim, né? A gente ficou amiga em tão pouco tempo, né?
- Você não pode ser fraca. Ai, a gente ainda não tá de férias, né. Já ia perguntar se você ia lá pra casa agora.
- Ah, mas daqui a pouco a gente tá de férias. Mas é sério, minha família te adora.
- Cara, eu só tenho vergonha do Alan. Ih, vamos levantando porque senão a gente não chega na porta a tempo. O ônibus lotou!
- Bora.
Botei a cara fora da janela para enfim conhecer as figuras.
O ônibus é um mundo.
E o mundo é um circo.
- Nossa, olha ele!
- Não disse? Ele tá sempre nesse ponto, mas por que ele não vai entrar no ônibus?
- Vem gatinho, vem... entra aqui, tá na hora de você ir pra casa.
- Lá pra casa, né!
(Gargalhadas)
O ônibus arrancou, rumo ao mergulhão. E parece que as duas mudaram de assunto - ou apenas retomavam a conversa interrompida pela aparição do rapaz que estava no mesmo ponto que eu.
- Olha, amiga. Você sabe que eu considero todos da sua casa como minha família. A sua mãe pra mim é minha tia. Você pra mim é minha prima. Não digo irmã, porque aí eu acho exagero. Mas são da minha família. Mesmo.
- É, eu também.
- Mas eu preciso te falar. Adoro a tia Arlete, sua mãe é uma fofa, já disse, é uma tia pra mim. Mas a sua mãe é uma fraca. Ela é uma fraca e te dá muitos maus exemplos nesse sentido.
(Fez silêncio no ônibus e eu desisti de fingir que estava lendo o livro que segurava. Precisava ver onde isso ia parar.)
- Você diz emocionalmente, né?
- É, emocionalmente!
- É, isso ela é sim.
- Por exemplo, ela ainda não digeriu a morte do Sérgio! O Sérgio morreu em 2000 e a gente tá em 2007!
- Ah, mas ela tá bem melhor agora.
- Não tá não. Ainda guarda todos os cds do Renato Russo porque ele gostava e não pode ouví-los para não chorar. Cara, morreu, acabou! Não pode. A sua mãe não levanta e você é igualzinha!
- Ah, também não é assim, foi foda a morte do Sérgio...
- Mas já foi. Ela não morreu, ela tá viva. E eu sei que você vai ficar assim quando alguém da sua família morrer.
- Isola!
- Olhaí! Tá vendo? Já sei que quando me falarem: a tia Arlete morreu eu vou falar: já providenciaram o enterro da Gabriela? Porque você vai se suicidar!Ai, eu já sei que vou ter que te esbofetear tanto quando a sua mãe morrer...
- Por que?
- Porque você vai dar escândalo, vai ficar gritando "Por que! Por que!" "Ela não podia ter morrido!"
(Gente, eu preciso ver a cara dessas pessoas. Mexo no cabelo tentando dar uma viradinha de leve e tentar avistar os semblantes, mas não rola.)
- Hahaha.
- É mesmo! Olha, graças a Deus que a minha mãe me criou pra vida, e não pra ela. Sempre pude ir a todos os lugares que quis. Ela sempre me deixou cair sozinha. Sempre esteve por perto para me ajudar a levantar. Mas antes falava: tenta sozinha, filha. Levanta sozinha. Agora, quando eu vi aquele piti que você e a tia Arlete fizeram por causa de uma espinha de peixe, eu não acreditei!!! Você quase chorou!!!
- Ah, mas foi foda aquela espinha!
- Olhaí! Tá vendo? A sua referência é a sua mãe que é uma fraca, você não pode ser igual a ela, Gabriela! Eu tenho até medo de que o seu pai ache que eu sou uma enxerida.
- Que nada, minha família toda te adora.
- Eu não saio mais da sua casa!!!
- Imagina. Sabe porque eles não acham? Senão minha mãe já tinha me falado alguma coisa.
- Eu tenho vergonha é do Alan. Outro dia ele atendeu o telefone e eu nem falei com ele, só perguntei a Gabriela está? Ele até brincou comigo, mas cara, que engraçado, morro de vergonha do Alan.
- Você é a amiga que meus pais mais gostaram até hoje.
- Gente, que vergonha do Alan!
(eu cá comigo: a amiga louca tá doida pra dar pro Alan)
- Minha mãe sempre fica tranqüila quando eu digo que vou sair com você.
- É por que ela já viu. Já viu que eu tenho ju-í-zo!
- Mas eu acho que a sua mãe também gosta de mim, né? A gente ficou amiga em tão pouco tempo, né?
- Você não pode ser fraca. Ai, a gente ainda não tá de férias, né. Já ia perguntar se você ia lá pra casa agora.
- Ah, mas daqui a pouco a gente tá de férias. Mas é sério, minha família te adora.
- Cara, eu só tenho vergonha do Alan. Ih, vamos levantando porque senão a gente não chega na porta a tempo. O ônibus lotou!
- Bora.
Botei a cara fora da janela para enfim conhecer as figuras.
O ônibus é um mundo.
E o mundo é um circo.
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