Eu não gosto de literaturas de autajuda. Um amigo meu me carregou para uma palestra dessas uma vez. Fiquei curiosa a respeito do que alguém poderia falar sobre a vida, que justificasse um ingresso não muito barato. As cadeiras estavam todas ocupadas: todos ávidos por respostas, instruções, enquanto o palestrante dizia que não havia receita de bolo para a felicidade, mas que nada era impossível depois que a pessoa identifica o seu foco na vida.
Aí ele contou que maravilha de vida ele conseguiu, enumerou cada tragédia que conseguiu superar, emocionou-se ao lembrar do primeiro momento em que ele conseguiu ajudar a mãe. Enquanto isso, rolavam projeções de um PowerPoint na parede: imagens coloridas, esquemas, frases fortes, com verbos no imperativo, trechos de fala de Gandhi, Charles Chaplin, Veríssimo. E a plateia anotava tudo (???) freneticamente.
Saí de lá um tanto quanto irritada com a pirotecnia pseudoútil do coroa bem apessoado. Orabolas, 70 reais para ouvir que com um foco, tudo é possível? E o meu amigo, embevecido, falando que realmente, que justamente foi o foco que faltou naquele momento em que ele decidiu abrir o próprio negócio, quando fez nãoseioque, quando isso, quando aquilo. Eu queria sacudí-lo pelo pescoço, gritar
peloamordedeusjuraquevocêouviuaquilotudoelevouasério?, mas preferi observar - como acontece na maioria das vezes - e pensar.
Ontem eu ganhei um livro de autoajuda. Ao questionar a razão do presente, o presenteador começou a defesa dizendo que, em primeiro lugar, ele não considerava aquele um livro de autoajuda. Fico aqui, com meus botões, a pensar: seria essa uma questão subjetiva, em se tratando de um livro cuja capa é a representada abaixo?

Chegando em casa, contei a história aos meus roomates e todos concordamos com o fato de que não. Não é subjetivo. Livros com lista de benefícios na contracapa e verbo imperativo no título,
do mesmo autor de Como fazer amigos e influenciar pessoas não dá para não ser considerado autajuda.
Acho que existem algumas autajudas disfarçadas -
Marcelo, ainda estou pensando se o Amor Líquido é autajuda ou não... ainda não estou certa, mas acho que ele é somente uma leitura bacana, mas que não oferece soluções para problemas ou promete melhorar nada na vida do leitor... mas vamos ver; voltarei a isso em algum momento -, mas o livrinho do Dale Carnegie, antes mesmo de abrí-lo - ele continua lacrado, enquanto eu penso se sucumbo à curiosidade ou decido o que fazer com a obra -, ele já mostra a que veio.
E teje dito.
=]
(Sim, eu agradeci o presente e entendi as boas intenções do presenteador. Não sou má nem malagradicida.)