Eles se separaram e quem saiu de casa foi ela. Ele ficou com o casal de filhos - a mais velha e o recém-não-mais-bebê.
As pessoas estão chocadas: Como uma mãe larga, assim, os filhos sozinhos?
Aí eu respondo: Não, ela não largou.Todas as quartas-feiras ela busca o casal na escola e em casa e, de quinze em quinze dias, os pequenos passam o fim de semana inteiro com ela: se divertem, tomam sorvete, brincam, vão ao teatro e ao cinema. E os dois não estão sozinhos... estão com o pai.
Os fulanos não entendem: Ah, mas ela é mãe... é crueldade deixar as crianças assim.
Eu tento explicar de novo: Não, ela não deixou... eles só se separaram.
Equivocados, continuam a argumentar: Mas é mãe. É instintivo.
Ainda com uma nesga de esperança na humanidade, esboço mais uma tentativa: Não, não é instintivo. É só uma convenção.
A humanidade insiste em me desapontar: Não... mãe é mãe. Tá dentro.
Só para ter certeza de que realmente estou ouvindo o que parece ser, lanço a pergunta final: O pai pode ir e deixar os pequenos com a mãe?
Os fulanos dão a resposta derradeira: Ah, o pai pode.
Aí eu penso que já deveria ter desistido dessa conversa na linha "As pessoas estão chocadas"*.
Levanto e olho pela janela, para ver se me depararei com carruagens, homens bigodudos, mulheres de vestidos armados, Dom Pedro desfilando e escravos levando chibatadas num tronco - chibatadas legitimadas pela mesma "biologia" que justifica esse instinto materno ma-ra-vi-lho-so e con-ve-ni-en-tís-si-mo.
*Preciso parar com essa mania de só reparar o lugar onde precisava ter cortado a conversa, muitas linhas depois.
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domingo, 5 de abril de 2009
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